Feito por Ana Paula Santos e Raphael Mussato
O cinema brasileiro não para! E nessa semana chega aos cinemas o curta-metragem FANTASMA NEON. Com roteiro e direção do jovem Leonardo Martinelli, a produção de apenas 20 minutos mostra a rotina de um entregador de aplicativo que planeja comprar uma moto. A crueza da realidade dele e dos milhares de trabalhadores precarizados no Brasil dos dias de hoje ganha cores vivas, música e dança. É na forma de um musical urbano que enxergamos uma pequena (mas significativa) parte da desigualdade que vivemos no país nos últimos anos.
O filme será exibido junto com o longa português FOGO FÁTUO (de João Pedro Rodrigues) em sessões duplas distribuídas pela Vitrine Filmes. Entrevistamos por e-mail o diretor Leonardo Martinelli e ele contou um pouco sobre a necessidade de abordar esse tema no cinema, suas referências para a produção, os desafios envolvidos nesse projeto e muito mais.
CINE FORA DO CIRCUITO: A narrativa em forma de musical contrasta com a crueza do tema do roteiro - a precarização do trabalho no Brasil atual. Como surgiu a inspiração para esse roteiro e por que apresentá-lo como um musical?LEONARDO MARTINELLI: Desde 2019, enquanto havia uma gradativa extinção de direitos trabalhistas, a figura do entregador de aplicativo surgiu como um personagem que era profundamente emblemático para essas novas formas de trabalho. Dessa forma, surgiu a ideia de pensar essa uberização do trabalho através da ótica do cinema musical. Utilizar do gênero que mais dá destaque aos personagens, cantando e dançando, para retratar de trabalhadores que sofriam de uma invisibilização simbólica, ao mesmo tempo que se tornaram intrínsecos ao horizonte urbano moderno.
CINE FORA DO CIRCUITO: O gênero musical normalmente remete a uma fantasia e beleza que definitivamente não estão presentes na realidade que FANTASMA NEON retrata. Quais foram os principais desafios que você e sua equipe enfrentaram na produção desse filme?
LEONARDO MARTINELLI: Pensando na invisibilização simbólica que esses trabalhadores de aplicativo passam, nosso filme investiga a possibilidade do cinema musical mostrar a fantasia como uma das formas de humanidade por trás dos uniformes, propondo ao público conectar-se com as lutas e esperanças desses profissionais. Com essa abordagem, buscamos refletir sobre as mudanças no trabalho contemporâneo e a importância de garantir direitos a todos os profissionais. Produzir um musical é desafiador em diversas esferas, pois adiciona camadas a mise en scene, como a música cantada na diegética e a coreografia. Dessa forma, as aventuras desse gênero estão equilibrando a forma do musical com o conteúdo da substância que buscamos investigar.
CINE FORA DO CIRCUITO: Gostaríamos que comentasse sobre as principais referências cinematográficas que você utilizou para fazer FANTASMA NEON. Filmes, diretores, o que você considerar importante. LEONARDO MARTINELLI: Dois diretores que estavam na minha mente na concepção do universo musical do filme foram Jacques Demy e Bob Fosse, que certamente inspiraram a atmosfera e a estética visual de Fantasma Neon. Desde o destaque da perspectiva de uma classe trabalhadora em Os Guarda Chuva do Amor de Demy, até a coreografia pulsante, frenética e pessimista de All That Jazz, foram filmes que ajudaram a criar o imaginário do nosso universo carioca de entregadores.
CINE FORA DO CIRCUITO: Foi uma grata surpresa para nós ver o Silvero Pereira no seu curta, pois é um ator que admiramos muito. Como foi trabalhar com ele?
LEONARDO MARTINELLI: Silvero topou estar no projeto mesmo sendo um curta-metragem que tinha um orçamento relativamente modesto. Sua abordagem de atuação acrescentou camadas profundas ao personagem, mesmo com pouco tempo de tela, tornando-o uma presença memorável. Além de suas habilidades excepcionais de atuação, sua versatilidade em dança e canto também enriqueceu o filme, criando uma performance completa e cativante.
CINE FORA DO CIRCUITO: Nos últimos anos, a cultura no Brasil sofreu diversos e pesados ataques do governo que estava no poder e que atuou muito para sucatear e quase criminalizar a cultura no país. Como é ser cineasta neste cenário? Houve algum momento em que o desânimo foi maior do que a vontade de realizar o seu trabalho?
LEONARDO MARTINELLI: Enfrentar um cenário de ataques e sucateamento à cultura no Brasil foi extremamente desafiador. A escassez de recursos já é uma realidade para produções independentes, e a situação se agravou com políticas que desvalorizam a cultura. Em momentos de desânimo, a vontade de realizar meu trabalho muitas vezes é posta à prova, mas é importante lembrar da paixão e do propósito que me movem como artista. Apesar das dificuldades, ser cineasta em meio a tais adversidades também pode ser um ato de resistência e de expressão da voz artística. De diversas formas, com nossa linguagem artística, podemos contribuir para a conscientização sobre a importância do incentivo estatal à cultura e do cinema independente, mesmo diante dos desafios políticos e econômicos.
CINE FORA DO CIRCUITO: Falando como cidadão, você acredita que a situação da classe trabalhadora no Brasil pode sair da condição de pesada exploração em que se encontra atualmente?
LEONARDO MARTINELLI: Acredito que ainda há muito trabalho pela frente. Mas precisamos acreditar nessa possibilidade para poder exigir uma adequação ao que nossa população precisa.
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