CRIATURAS DO SENHOR e o peso que uma mãe carrega quando tenta proteger o seu filho a qualquer custo

Escrito por Ana Paula Santos

Paul Mescal tem tudo para ser o nome do ano (de novo). Se em 2022 ele poderia ser facilmente eleito melhor pai, pela sua belíssima interpretação em AFTERSUN, agora em 2023 ele é forte concorrente ao prêmio de pior filho, pois seu personagem em CRIATURAS DO SENHOR pode ser várias coisas, menos um exemplo a ser seguido. Mas vamos começar do princípio.

O novo filme produzido pela queridinha dos cinéfilos A24 é um drama sobre a relação entre mãe e filho onde o não-dito, as mágoas do passado e as mentiras do presente pairam sobre ambos, contaminando o que está em volta. No entanto, existe uma sutileza nesse roteiro que nos deixa certa altura em dúvida sobre o comportamento desses personagens. A humanidade deles é desconcertante, pois mostra camadas de fragilidade que também poderiam ser nossas. Quase como um espelho, enxergamos nessa mãe que protege, no pai que reprime e no filho que oculta, um pouco de nós mesmos. É desconcertante e também assustador.

Dirigido por uma dupla de diretoras, a Anna Rose Holmer e a Saela Davis, CRIATURAS DO SENHOR se passa em uma vila de pescadores na Irlanda. A rotina pesada e perigosa desse lugar se mostra desde o início, com o mar agitado, a fotografia azulada de uma manhã muito fria e um corpo retirado do mar. Mais uma mãe chora a morte do seu filho. Aileen O’Hara (Emily Watson) observa a tudo consternada. Seu filho também se foi. Não está morto, mas mora na Austrália, e quase não dá notícias. Mas Brian volta de repente, sem avisar, e sua mãe está muito feliz, embora preocupada com o que esse retorno pode significar para a família. Não sabemos ainda, mas tem algo errado. Brian é simpático, bem visto por todos, mas fala pouco, não menciona em nenhum momento o que fez na Austrália durante o tempo em que esteve fora, diz que voltou para ficar e vai trabalhar para reerguer a fazenda de ostras da família.


Dizem que mulher nasceu para ser mãe. Dizem que o instinto materno é algo inato e não deve ser ignorado. Dizem que a maternidade é algo sublime. Mas não dizem o quanto pode ser frustrante para a mulher criar um filho e, perceber, depois de adulto, que algo não saiu como o planejado. Aileen passa por cima da sua própria moral para proteger o filho, chegando até a mentir para a polícia na tentativa de encobrir um possível crime cometido por Brian. E por que eu digo “possível crime”? Porque não tem nenhuma cena no filme que mostre isso. A sutileza a qual me referi no início também é sobre isso. O não-mostrado nos deixa de mãos atadas para acusar. Mesmo com claros sinais, demoramos para enxergar culpa naquele rapaz bem apessoado (gente, é o Paul Mescal, como desconfiar dele?). E é também com sutileza que a direção nos leva a colocar a vítima em dúvida (não vimos nada, nada aconteceu). A voz cristalina que encanta nos eventos da comunidade é sumariamente calada quando usada para denunciar um homem. Tudo assistimos, mas nada podemos fazer. Não vimos nada. Mas precisamos ver para acreditar no que uma mulher diz?

Nesse mar ora calmo, ora turbulento encontramos as marcas de uma comunidade machista que atormenta e despreza as mulheres. Um ciclo silencioso de violência que deixa marcas, afasta famílias, tumultua, encerra amizades e oprime. Um apanhado de tradições ultrapassadas que sequer deixa os pescadores aprenderem a nadar. Diante de tudo isso, os atos extremos que porventura venham a ser tomados é só consequência de algo já estabelecido. E nada podemos fazer.

CRIATURAS DO SENHOR estreia nos cinemas dia 13 de abril. Agradecemos a California Filmes e a Sinny Assessoria pelo convite para a cabine de imprensa desse filme e pela confiança no nosso trabalho.

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