BEAU TEM MEDO mostra de maneira alegórica (mas ao mesmo tempo muito crua) como as mães podem ser cruéis e destrutivas

Escrito por Ana Paula Santos

Relações familiares são, em sua essência, complexas e imperfeitas. Afinal, estamos falando de seres humanos convivendo e partilhando sonhos, medos e frustrações. Desde os seus primeiros curtas, quando ainda era estudante de cinema, Ari Aster já mostrava o quanto as relações e interações familiares podem ser negativas, tóxicas e assustadoras. Em seus trabalhos, o jovem diretor gosta de mostrar os perigos, dores e as consequências trágicas de relações familiares e afetivas disfuncionais e abusivas. Não seria diferente com o seu novo longa, onde acompanhamos um homem adulto e paranoico que precisa “apenas” visitar a mãe na casa onde ela mora.

Escrito, dirigido e produzido pelo próprio Ari Aster e lançado pela querida A24, BEAU TEM MEDO (Beau Is Afraid) é de longe a obra mais complexa e grandiosa do diretor, que não economizou em nada, seja na parte técnica ou no desenvolvimento do roteiro. Bem longe do gênero terror, mas ainda inserido nesse universo, o filme é uma viagem pelo universo deslocado de Beau Wassermann (maravilhosamente interpretado por Joaquin Phoenix), um homem solitário e assustado, que mora sozinho em um bairro violento e está com viagem marcada para visitar a mãe, o que claramente lhe deixa ansioso e nervoso. Aos poucos, conforme tudo vai dando errado, vamos conhecendo sua mãe, uma empresária conhecida que criou o filho com rigor desmedido e um amor sufocante e repressivo. Uma relação de moldes edipianos, onde ela se colocou voluntariamente como o único objeto de amor que o filho poderia ter.

Tudo o que pode dar errado numa relação mãe-filho acontece aqui. E enxergamos em Beau o filho que nunca foi suficientemente bom para sua mãe e agora, adulto, convive diariamente com o peso de uma culpa que lhe foi atribuída antes mesmo dele poder tomar as próprias decisões. BEAU TEM MEDO é uma obra que coloca a mãe como uma figura narcisista e destrutiva que provoca a queda do seu próprio filho e depois de o julgar em um tribunal desleal, o condena por não ser aquilo que ela planejou – pois o que ela planejou está muito além de qualquer noção de normalidade. Mas também (e principalmente) é uma obra sobre um filho que viveu toda uma vida tentando inutilmente corresponder às pesadas expectativas que sua mãe lhe despejou. E sofre demais com esse peso.

Ari Aster aprendeu (observando ou vivenciando – não sabemos) o quanto pode ser nocivo estar em uma família. E é necessário que a gente também aprenda isso. A cultura brasileira, de modo geral, supervaloriza o conceito de FAMÍLIA, a colocando como algo sagrado e do qual não podemos criticar e muito menos se afastar. No pacote, pode inclui aceitar como natural coisas como abusos e violências, invasão de privacidade, autoritarismo e preconceitos diversos, tudo para preservar o bom nome da instituição familiar e da manutenção da ordem interna. Saúde mental, paz e liberdade valem muito mais do que laços sanguíneos tóxicos e destrutivos. E quanto mais cedo enxergamos em nossa família os sinais ruins, mais cedo podemos nos livrar deles e encontrar o nosso próprio caminho.

O filósofo francês Jean-Paul Sartre disse certa vez que “família é igual varíola: você tem uma vez e fica marcado pelo resto da vida”. Cruel? Talvez. Mas muito real. O que podemos fazer é tentar evitar que essas marcas determinem quem somos e como iremos viver.

BEAU TEM MEDO não é uma obra de fácil digestão, mas que podemos nos identificar até com certa facilidade. O que não deixa de ser bem assustador. O filme está em cartaz nos cinemas com distribuição da Diamond Filmes, a quem agradecemos, junto com a Galeria Assessoria, pelo convite para a cabine de imprensa e pela confiança no nosso trabalho.

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