Em OPPENHEIMER, Christopher Nolan conta a história do pai da bomba atômica com uma riqueza técnica e visual poucas vezes vista na história do cinema

Escrito por Ana Paula Santos

A mitologia grega nos conta que Prometeu era um titã que desafiou os deuses do Olimpo e roubou o fogo dos céus para entregar aos humanos. Descoberto, foi punido por Zeus, que o acorrentou no alto de uma montanha para que uma águia devorasse o seu fígado todos os dias. O órgão se regenerava durante a noite para ser devorado no dia seguinte. Prometeu simboliza um “salvador” da humanidade e também aquele que, devido ao seu temperamento transgressor, sofre um cruel castigo para servir de exemplo a quem pensar em desobedecer aos poderosos. 

Ainda nos segundos iniciais de OPPENHEIMER, filme novo dirigido por Christopher Nolan e que estreia essa semana nos cinemas, temos uma citação sobre o mito de Prometeu que entrega algo importante sobre o personagem que iremos acompanhar nas próximas três horas. Julius Robert Oppenheimer (interpretado por Cillian Murphy), tal qual Prometeu, quer desafiar os deuses (a física dos anos 30 e a mecânica quântica da época) para entregar o fogo (a bomba atômica) para a humanidade (os que estão combatendo o nazismo). E igual ao mito grego, será julgado por questionar, não se conformar e não se curvar as ordens superiores. 



Quando foi anunciado que Christopher Nolan estava trabalhando em um roteiro sobre a vida do físico americano chamado de “pai da bomba atômica”, por ter dirigido o projeto que desenvolveu e criou as primeiras armas nucleares, pensamos sob qual lente Nolan nos faria olhar para esse personagem. Particularmente, eu temia o famigerado ufanismo e revisionismo histórico, tão presente em muitos filmes de Hollywood, que tentam dar aos EUA um heroico protagonismo que nunca tiveram. Outra questão (essa mais ligada as brincadeiras de rede social) era se o diretor iria utilizar efeitos especiais no filme, visto que não seria nada sensato (pra dizer o mínimo) querer gravar com bombas de verdade e efeitos práticos - como ele tanto aprecia. O caso é que, quando olhamos para a história de Oppenheimer e do caminho que o levou até a bomba de hidrogênio, é impossível não imaginar outro alguém que não seja Christopher Nolan comandando o projeto. Da mesma forma como Oppenheimer dominava fórmulas e cálculos físicos complexos, Nolan domina as técnicas e tecnologias do cinema como poucos. 


Essa é uma daquelas histórias que transbordam grandeza por todos os lados, e Nolan deixa isso muito claro em cada frame do filme. Também responsável pelo roteiro, ele costura os acontecimentos com mãos habilidosas, como quem tece um tear que alterna cores vivas e dramáticas com um preto e branco elegante e imponente, transformando uma história real, complexa e cheia de personagens importantes em algo empolgante de acompanhar, com uma narrativa muito bem conduzida e que não perde o foco em nenhum momento. Um dos pontos altos do filme são os diálogos entre os cientistas, que fazem até o mais desanimado aluno de física querer ler mais sobre fissão nuclear, urânio, plutônio e radiação na saída do cinema. Gravado com modernas e potentes câmeras IMAX, toda a parte técnica do filme (som, trilha sonora, fotografia, cenografia, montagem, efeitos especiais etc) ganha poder e volume, salta da tela e preenche a sala, pula nas poltronas e deslizam do teto às paredes, nos envolvendo por completo. Raríssimas vezes na vida eu me deslumbrei tanto com a tecnologia envolvida em um filme e hoje foi um desses momentos. 


Cillian Murphy (à esquerda) e J. Robert Oppenheimer

Numa divisão imaginária entre “antes da bomba” e “depois da bomba”, a segunda parte é muito interessante, pois mostra como, de um dia para o outro, o exército e o governo americano tentam descartar Oppenheimer da pesquisa e de outras coisas envolvendo a bomba nuclear. Uma pequena cena representa bem isso: Oppenheimer tenta orientar alguém do exército sobre como manipular a bomba antes de fazer o lançamento e recebe como resposta um “pode deixar, a gente assume daqui”. Alçado ao nível de figura pública influente após os lançamentos feitos nas cidades japonesas de Hiroshima e Nagazaki (agosto de 1945), Oppenheimer passa a deliberar sobre o controle dessa arma, o que leva ele a ser acusado de traidor da pátria e informante da União Soviética, sendo exposto para quem quisesse ver. Existe muito mais ego ferido, vaidade e luta por poder nos bastidores de um governo do que sonha a nossa vã filosofia. 


Judeu e filho de imigrante alemão, Oppenheimer não tinha uma orientação política convicta, mas abominava o que o nazismo e o fascismo estavam fazendo na Europa e acreditava que as pessoas deveriam se posicionar a respeito. Enquanto alguns estavam preocupados com o “fantasma do comunismo”, Oppenheimer pensava no que poderia acontecer com a humanidade se os nazistas conseguissem desenvolver uma bomba nuclear. A história desse homem é a história de alguém tentando fazer o que acredita ser o certo, convicto de que os seus conhecimentos poderiam ser utilizados apenas para a paz, mas que não enxergou (ou não quis enxergar) o quanto foi usado para favorecer os Estados Unidos, que tiveram nessa bomba a principal ferramenta de alicerce para o seu imperialismo.


Imaginada para ser algo que acabaria com todas as formas de guerra, a bomba de hidrogênio mudou para sempre a forma como os governos entendem um conflito armado. Oppenheimer tinha medo de que sua criação destruísse o mundo. E certa forma, destruiu mesmo. 


O filme OPPENHEIMER estreia nos cinemas dia 20 de julho. Agradecemos muito a Universal Pictures e a assessoria CDN pelo convite para a cabine de imprensa e pela confiança no nosso trabalho.

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