DEPOIS DE SER CINZA aborda os relacionamentos amorosos dos dias atuais, mas compromete o protagonismo feminino com um olhar excessivamente masculino

Escrito por Ana Paula Santos

Muito do que somos se estrutura e está intimamente ligado as pessoas que encontramos no caminho. Somos os nossos relacionamentos amorosos, encontros sociais, parcerias de trabalho, amizades e camaradagens diversas. Tudo se une numa teia emaranhada em fios de afeto que moldam e nos moldam. O filme brasileiro DEPOIS DE SER CINZA, que estreia nos cinemas no próximo dia 03 de agosto faz um recorte contemporâneo (e deveras classudo) sobre os relacionamentos amorosos e como eles estruturam a vivência e os caminhos da vida. 


Dirigido por Eduardo Wannmacher e roteiro escrito por Leo Garcia, o filme acompanha três mulheres que se envolveram com o mesmo homem em diferentes momentos da vida e como isso impactou de maneiras diferentes a vida de todos. 

A narrativa é dividida em pequenos blocos que nos apresentam essas personagens e depois vai mesclando os acontecimentos, que se alternam entre Porto Alegre, no Brasil e as cidades de Dubrovnik, Zadar e Zagreb, na Croácia. E é nesse país que o filme começa mostrando o encontro casual de Isabel (Elisa Volpatto) e Raul (João Campos). Ele é antropólogo e está viajando a trabalho. Ela foi embora do Brasil por causa de um namoro e agora está sozinha, afogando frustrações em bebida e sarcasmo. Raul também não está muito bem, mas prefere não falar nada a respeito.

Logo conhecemos Suzy (Branca Messina), amiga de Raul na faculdade e na pós-graduação. Filha de um falecido antropólogo falecido, ela não sabe que rumo dará para a carreira ao terminar os estudos. Sua amizade com Raul, que flerta com o romance o tempo todo, embora claramente isso venha mais da parte dele, parece ser uma das poucas coisas mais concretas na vida dela.

A terceira personagem feminina dessa trama é a psicóloga Manuela (Silvia Lourenço), com quem Raul vai se consultar por causa de algumas crises de ansiedade. Ela é uma mulher madura, estabelecida em sua profissão e aparentemente bem resolvida em sua vida. Mas logo descobrimos que sua irmã está casada com o homem que foi seu namorado antes. 

O filme tem a proposta muito interessante de abordar os caminhos dos relacionamentos a partir de pontos de vista femininos, cada um com as suas particularidades e seu próprio desenvolvimento, mas não dá para deixar de notar como todas essas personagens estão atreladas ao masculino, e que as coisas que fizeram antes e fazem agora dependem – em maior ou menor grau – de algo que envolveu um homem. Ao longo do filme fica bem claro como o protagonismo dessas mulheres é consideravelmente prejudicado, pois as suas decisões sempre envolveram um homem. Seja a presença indireta do pai da Suzy que influencia na escolha da carreira dela, ou o namoro de Isabel que a levou para um país tão distante ou a própria briga familiar de Manuela, TUDO sempre retorna para algum homem. Nesse contexto, Raul é colocado na trama como um catalizador, o elemento que traz à tona tudo isso e permite que essas mulheres superem o passado e deem novos significados as suas vidas. 


Mesmo com três mulheres em papeis principais, DEPOIS DE SER CINZA acaba direcionando os seus holofotes para Raul. Num movimento até que previsível em um filme dirigido e roteirizado por homens. E mesmo com personagens tão bacanas e uma parte técnica tão bem trabalhada, fica a sensação de não houve esforço real para construir uma estória que representasse as vivências femininas de maneira mais convincente e menos atrelada aos afagos (ou desprezos) masculinos. 

Agradecemos a Sinny Assessoria, Vitrine Filmes e Boulevard Filmes pelo convite para a cabine de imprensa online desse filme e pela confiança no nosso trabalho. 

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