O HOMEM CORDIAL escancara o racismo e a violência no Brasil, através do olhar privilegiado de um homem branco protegido em sua bolha social
Escrito por Ana Paula Santos
Em 1936, o sociólogo e historiador Sérgio Buarque de Holanda publicou o livro “Raízes do Brasil”, e em um capítulo nos trouxe o conceito de “homem cordial”, onde propõe uma interpretação do ser brasileiro. Tal conceito ainda é muito estudado e discutido nos dias de hoje, embora muitas vezes sua interpretação seja desviada do que apresentou o autor. CORDIAL vem do latim CORDIS e significa coração. Dentro disso, Sérgio Buarque diz que o brasileiro não pontua suas ações pela amabilidade ou bondade, mas pelo afeto. Para o sociólogo, o brasileiro é um sujeito passional, que age movido pelo afeto, priorizando os laços emotivos à frente da razão. A cordialidade, nesse contexto, vai se caracterizar pela tentativa de personalizar todas as interações sociais. E todo antagonismo será interpretado como ameaça e pode resultar em reações violentas.
O diretor Iberê Carvalho (que também é sociólogo) utiliza o
conceito de homem cordial para o roteiro de seu novo filme O HOMEM CORDIAL, onde aborda questões
como o linchamento virtual, racismo, violência policial e discursos de ódio,
vistos – e vividos – pelo personagem Aurélio (Paulo Miklos), vocalista de uma
banda de rock que está voltando as atividades. Ao tentar ajudar um garoto negro
acusado de roubar um celular, Aurélio (homem branco, classe média e com
relativo status sociais) acaba envolvido na ocorrência que resultou na morte de
um policial, sendo julgado e cancelado na internet, numa proporção que coloca a
sua vida em risco.
Integrante de uma banda de rock que abordava temas sociais
em suas letras, Aurélio é um homem rodeado de privilégios que a sua cor e a sua
classe lhe garantem. Pode ser bem-intencionado, mas ainda sim está dentro de
uma bolha que não o deixa perceber o que se passa de verdade no Brasil. Numa
única noite, vamos acompanhar esse personagem cujo olhar branco é ingênuo
demais para entender a gravidade do que está acontecendo com ele e das
consequências que podem estar por vir. O contraponto a esse olhar vem de Béstia
(interpretado por Thaíde), homem negro, morador da periferia e dono de um bar.
Amigos desde a juventude, tocaram juntos na banda, Béstia tem uma visão bem
realista, quase pessimista do que a nossa sociedade é nos dias de hoje. A certa
altura ele diz a Aurélio “O mundo visto pelos seus olhos de branco deve ser maravilhoso
demais”. A frase nos acerta em cheio, pois escancara que nenhum estudo acadêmico,
pesquisa, estatística, debate será suficiente para entender o que significa ser
negro no Brasil, país claramente racista e que, nos últimos anos assistiu uma
escalada de violência e opressão contra os negros, observado por um governo que
reforçava os discursos de ódio não apenas online, mas estimulava esse ódio a se
manifestar nas ruas.
A direção reforça o isolamento ideológico do personagem
principal em ângulos fechados, focados no rosto dele e desfocando o que está ao
seu redor, reforçando que os olhos do homem branco pequeno burguês são
seletivos e sua posição de privilegio o impede de enxergar o que se passa a sua
volta. O HOMEM CORDIAL também mostra ao expectador que a ação individual sem a devida
consciência de classe não ajuda em nada a luta coletiva, e pode, inclusive,
piorar a situação dos realmente envolvidos na causa. Esse filme nos leva a pensar
no nosso papel na construção de um país justo, livre dos preconceitos e que dê
aos seus cidadãos iguais oportunidades de estudo, trabalho e dignidade.
Agradecemos a O2 Play Filmes e a Sinny Assessoria pelo convite para a cabine de imprensa desse filme e pela confiança no nosso trabalho.

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