Mostra Retrospectiva Frank Capra estreia no CCBB-SP e discute a obra de um dos grandes nomes do cinema estadunidense. E entrevistamos Eduardo Reginato, um dos curadores.
O Centro Cultural Banco do Brasil promove, pela primeira vez no Brasil, uma retrospectiva completa e dedicada exclusivamente à obra do cineasta ítalo-americano Frank Capra. A mostra acontece em São Paulo de 17 de maio a 12 de junho e segue temporada no Rio de Janeiro de 21 de junho a 17 de julho.
Com curadoria de José de Aguiar e Eduardo Reginato, a Mostra Frank Capra exibirá 27 filmes do diretor - entre ficção e documentário. Segundo os curadores, a mostra pretende revelar as várias fases do cineasta, assim como situá-lo dentro da história do cinema americano, não só através das exibições dos filmes, muitos dos quais feitos durante a Grande Depressão, mas também promovendo discussões diretas com o público por meio de debate e masterclass presencial.
Como um dos autores centrais da Era de Ouro de Hollywood, Capra discutiu questões muito caras aos Estados Unidos, como a Grande Depressão dos anos 1930, o otimismo em torno da política econômica do New Deal e a Segunda Guerra Mundial, constituindo um imaginário em torno do sonho de vida americano. Sua filmografia reúne um corpo de obras que propagandeou ideais, princípios e valores fundamentais da identidade nacional estadunidense em um projeto de mitificação da história do país.
A convite da Atti Comunicação, entrevistamos por e-mail o curador Eduardo Reginato e ele contou pra gente como foi o processo dessa curadoria, a importância da obra do Frank Capra para entendermos o idealismo do sonho americano e a expectativa sobre a recepção do público. Agradecemos a Atti e ao Eduardo pela oportunidade, disponibilidade e confiança no nosso trabalho.
CINE FORA DO CIRCUITO: Comente um pouco sobre os motivos que os levaram a homenagear esse diretor e como foi o processo para selecionar os filmes que serão exibidos.
EDUARDO REGINATO: Os filmes de Frank Capra fazem parte de minha memória cinematográfica afetiva: assistia a reprise dos filmes com minha mãe ou meu avô no Corujão da Rede Globo. Sempre achei que os filmes de Capra transmitiam uma mensagem tranquilizadora quanto ao futuro. Era tipo: seja uma pessoa honesta e com bons sentimentos que o mundo, de alguma, for vai lhe retribuir. Ou pense no seu próximo que, mesmo que você seja traído pelas pessoas que mais confia, sua integridade sempre será preservada e você estará fazendo algo bom para alguém. Além desse valor emocional, haviam os quesitos técnicos insuperáveis. O cinema de Frank Capra é um primor como exemplo de narrativa cinematográfica, se utilizando de histórias simples com personagens incrivelmente empáticos em contextos que o público se identificava de imediato. Sem falar em um domínio sobre a arte de dirigir atores e, claro, contar com atores extraordinários como James Stewart, Cary Grant, Barbara Stanwyck, Jean Arthur, Claudette Colbert, Clark Gable e Gary Cooper. Assim, o processo de seleção dos filmes partiu em priorizar o seu auge criativo que vai do início dos anos 1930 até o final dos anos 1940, além de ter um exemplo de sua fase no cinema mudo e sua expressiva série de filmes documentais sobre a Segunda Guerra Mundial conhecida com Why We Fight.
CINE FORA DO CIRCUITO: Como a obra do Frank Capra ajuda a entender o idealismo do sonho americano e de que forma isso se reflete nos dias de hoje?
EDUARDO REGINATO: Frank Capra era um imigrante italiano que chegou nos EUA, muito pequeno junto com sua numerosa família. Os EUA tratavam e tratam os imigrantes como invasores ou como mão de obra. Naquele momento, no início do século XX, os EUA recebiam os imigrantes abertamente e o que esperava cada uma dessas pessoas, quase em sua maioria analfabeta e não instruída no inglês, era achar um trabalho físico e ser mão de obra. Frank Capra acreditou, desde a infância, que o estudo fazia o homem um ser pensante e com senso crítico para não cair na ilusão do idealismo americano. Acredito que os filmes de Capra são inúmeras fábulas morais sobre o homem comum que enfrenta gigantes, nesse caso os gigantes são as corporações, as fábricas, os políticos corruptos, a ganância e o capitalismo. Se há algo idealista está no fato de ser possível um homem de princípios humanistas conseguir dobrar a política conservadora e a ganância capitalista. Acho que Frank Capra era tão bom no que fazia que vendeu ideias socialistas com cara de idealismo americano. Hoje ainda se reflete, no dia a dia, cenários do cinema de Capra, ainda o homem comum tem que lutar contra o domínio das grandes corporações e de políticos inescrupulosos que tentam roubar sua força, mente e dignidade. Ainda é absolutamente necessário ter esperança para lutar contra um sem fim de narrativas mentirosas, manipulação, ódio e preconceito. O cinema de Frank Capra nos leva à reflexão de que mais vale nossa dignidade e amorosidade do que qualquer dinheiro no mundo.
CINE FORA DO CIRCUITO: A Velha Hollywood tem muitos diretores de renome, cujas obras ainda são muito valorizadas. Tem algum outro diretor dessa época que você gostaria de fazer a curadoria de uma mostra?
EDUARDO REGINATO: (risos) Esse mundo das mostras é bastante concorrido. Assim, me abstenho de falar em mostras que gostaria de fazer. Falo de mostras já realizadas e que gostaria de ter feito, um exemplo seria a mostra do diretor John Ford.
CINE FORA DO CIRCUITO: Como você espera que seja a recepção do público a essa mostra?
EDUARDO REGINATO: Acredito que a recepção do público será intensa e excelente. Muitos dos filmes fazem parte do imaginário popular. Adultos e idosos vão querer rever ou conhecer os clássicos. Além de ser um grande momento para uma nova geração de cinéfilos conhecer o cinema de um diretor que influenciou a forma de fazer comédias e filmes românticos. O público vai perceber que muito do que se assiste hoje só existe porque Frank Capra criou dezenas de obras primas lá atrás, nos anos 1930 e 1940 do século XX.
CINE FORA DO CIRCUITO: De tudo o que será exibido na mostra, qual o seu título favorito e por quê?
EDUARDO REGINATO: Meu título favorito é A Felicidade Não se Compra. É clichê, mas esse filme me tocou num momento em que era jovem e estava perdido numa cidade grande sem saber o que fazer para sobreviver. Esse filme me fez acreditar que era possível lutar e sobreviver. Por isso, acredito que o cinema de Frank Capra é o cinema da esperança.
SERVIÇO:
Mostra Frank Capra – Retrospectiva
Local: Centro Cultural Banco do Brasil São Paulo (@ccbbsp)
Período: 17 de maio a 12 de junho
Ingressos: Pelo site bb.com.br/cultura e na bilheteria a preços populares
(R$ 10 inteira / R$ 5 meia)
Classificação indicativa: De Livre a 14 anos, consultar programação.
Endereço: Rua Álvares Penteado, 112 – Centro Histórico, São Paulo – SP
Funcionamento: Aberto todos os dias, das 9h às 20h, exceto às terças
Entrada acessível: Pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida e outras pessoas que necessitem da rampa de acesso podem utilizar a porta lateral localizada à esquerda da entrada principal.
Informações: (11) 4297-0600
Estacionamento: O CCBB possui estacionamento conveniado na Rua da Consolação, 228 (R$ 14 pelo período de 6 horas - necessário validar o ticket na bilheteria do CCBB). O traslado pela van do CCBB é gratuito para o trajeto de ida e volta ao estacionamento e funciona das 12h às 21h.
Transporte público: O Centro Cultural Banco do Brasil fica a 5 minutos da estação São Bento do Metrô. Pesquise linhas de ônibus com embarque e desembarque nas Ruas Líbero Badaró e Boa Vista.
Táxi ou Aplicativo: Desembarque na Praça do Patriarca e siga a pé pela Rua da Quitanda até o CCBB (200 m).
Van: Ida e volta gratuita, saindo da Rua da Consolação, 228. No trajeto de volta, há também uma parada no metrô República. De 12h até o encerramento das atividades do CCBB.

Comentários
Postar um comentário