SKINAMARINK é o terror que nos leva por lugares aonde dificilmente iríamos por conta própria

Escrito por Ana Paula Santos & Raphael Mussato

No final do segundo semestre de 2022 só se falava em uma coisa no Brasil e não tinha nada a ver com futebol ou política. O assunto da vez era o filme SKINAMARINK, terror experimental e de baixo orçamento (baixo mesmo, custou cerca de 15 mil dólares) que estava circulando pelos meios alternativos e provocando sentimentos, reações e debates dos mais diversos. Tudo por causa da narrativa utilizada para contar essa estória. Agora, o filme chega aos cinemas brasileiros e temos a chance de entender (em tela grande e alta resolução) os motivos de tanto alvoroço.


Escrito e dirigido pelo canadense Kyle Edward Ball, SKINAMARINK parte de um fiapo de roteiro para mobilizar um inconsciente de ideias e medos guardados fundos na nossa memória. No filme, duas crianças (6 e 4 anos) acordam de madrugada e não encontram os pais. Logo depois, notam que as portas e janelas da casa também sumiram. O clima imersivo de desolação, abandono e medo toma conta da tela e é reforçado pela parte técnica da produção. Sua fotografia é escura, granulada (lembra as gravações caseiras feitas nos anos 1990) e nunca revela as cenas por completo. Além disso, as câmeras estão posicionadas em ângulos estranhos, registrando a quina dos móveis ou o canto de uma parede, quase sempre na altura da visão de uma criança pequena. Não vemos os rostos das crianças em nenhum momento e também não encontramos nenhum outro adulto naquele local, mas percebemos que outra voz fala com eles em certos momentos. Seria uma ameaça real ou alguma criação da imaginação deles (nossa)?

O filme explora muito bem alguns medos que estão presentes em todas as crianças, principalmente na primeira infância. O medo de perder os pais, medo do escuro, medo de ficar sozinho a noite. O diretor traduz os sentimentos de desamparo e desalento que permeiam essas crianças em uma linguagem audiovisual riquíssima de símbolos, mas ao mesmo tempo, absolutamente simples. Acompanhar essa jornada solitária e inquietante nos lembra da nossa própria fragilidade, do quanto ainda somos crianças desamparadas em um mundo estranho e potencialmente nocivo. Também é um filme aberto a interpretações que fogem desse círculo principal. Seria esta casa o limbo onde os personagens, já mortos em alguma tragédia familiar, habitam enquanto aguardam a salvação? Seria tudo isso apenas o sonho confuso de uma criança que pegou no sono em frente à TV assistindo desenhos animados? A grande (e maior) qualidade de SKINAMARINK é não fornecer nenhuma mísera resposta as tantas dúvidas que podem (e vão) surgir durante a projeção. Ao fim de cerca de 100 minutos entendemos que tudo está ali, na tela, mas ao mesmo tempo não tem nada ali, e o que vemos na sombra escura da sala do cinema (ou do nosso quarto) é a nossa imaginação tão poderosa quanto o maior dos pesadelos.

Entendemos pessoalmente que o gênero terror é o mais conectado com tudo aquilo que nos faz humanos. Ele abraça os nossos sentimentos mais desconhecidos, os medos mais profundos e as lembranças mais sombrias, muitas vezes esquecidas no fundo do inconsciente e nos devolve na forma de monstros e entidades malignas que precisamos encarar de frente para vencer e superar. Em SKINAMARINK aprendemos isso de forma muito clara, mas diferente dos filmes que estamos acostumados a ver, aqui não enxergamos nenhum monstro a ser enfrentado... porque ele está muito bem guardado dentro de cada um de nós.

Para finalizar, a expressão SKINAMARINK em si não significa nada, é apenas uma sonoridade musicada, de uma canção canadense datada de 1910. Tal qual o nosso ILARIÊ, as crianças de lá crescem ouvindo a música e depois de adultos não esquecem mais.

Agradecemos imensamente a assessoria da A2 Filmes pelo convite para a cabine de imprensa e pela confiança no nosso trabalho.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

CRIATURAS DO SENHOR e o peso que uma mãe carrega quando tenta proteger o seu filho a qualquer custo

BEAU TEM MEDO mostra de maneira alegórica (mas ao mesmo tempo muito crua) como as mães podem ser cruéis e destrutivas

WHIPLASH e a romantização do assédio moral como forma de motivação