NOITES ALIENÍGENAS coloca o Acre no mapa do cinema brasileiro em trama simples que mostra pessoas comuns que tem as vidas afetadas pelo tráfico de drogas

Escrito por Ana Paula Santos

Quando se fala sobre a influência do tráfico de drogas no cotidiano das comunidades brasileiras, os exemplos citados são de metrópoles como São Paulo e Rio de Janeiro, que aparecem sempre nos noticiários policiais e jornais. É uma questão antiga e complexa, que envolve corrupção, brigas por poder, machismo, racismo e muita, muita violência. 

NOITES ALIENÍGENAS, dirigido por Sérgio de Carvalho e cujo roteiro foi inspirado no livro de mesmo nome que ele escreveu, é um filme produzido e gravado na periferia de Rio Branco, capital do Acre. O primeiro filme feito nessa região do país. Se nos memes e piadas o Acre é retratado como um lugar desconhecido, um buraco negro repleto de florestas e animais exóticos, na vida real o estado enfrenta problemas iguais os de qualquer espaço urbano do Brasil. Desemprego, drogas e violência são alguns dos temas abordados nessa produção que não tem um roteiro específico, mas é o recorte da vida de diversos personagens que convivem diretamente com o tráfico de drogas, cuja rota está passando pelo Acre faz alguns anos, e as consequências disso para a vida de todos.

Na trama, acompanhamos alguns dias da vida de Rivelino (ou Riva – interpretado por Gabriel Knoxx) jovem de 17 que trabalha para o traficante Alê (Chico Diaz), que não está ligado a nenhuma facção criminosa. Alê é bem tranquilão, gosta de conversar sobre outros universos e alienígenas que estão nos rondando. E tem também o índio Paulo (Adanilo Reis), viciado em drogas que está afastado de sua tribo e suas referências ancestrais, sempre tentando algum dinheiro para comprar drogas. Em torno deles, outros personagens percebem esse movimento, cada um da sua maneira. Esses poucos dias que vemos na tela são mais do que suficientes para entender como a questão do tráfico se desenvolve numa capital como Rio Branco, que é urbana, mas está muito próxima da Amazônia, uma das bases da identidade brasileira.

Mas afinal, que identidade brasileira é essa?

A formação do povo brasileiro como nação se dá a partir do entendimento de que antes de qualquer povo europeu imaginar que existia esse lado do continente, aqui existiam tribos indígenas nativas, que foram exterminados / escravizados / catequizados quando os europeus chegaram e invadiram tudo. Antes de nos denominarmos brancos “civilizados”, é preciso lembrar que somos descendentes de povos da floresta, que tentam até hoje proteger seus corpos, costumes e territórios das violências do homem branco (coloquei no plural porque sabemos que eles não são vítimas de apenas um tipo de violência).

Ao narrar essas estórias, NOITES ALIENÍGENAS também fala sobre a ausência do estado, que deixa os jovens desamparados e suscetíveis ao poder e influência dos traficantes, que oferecem emprego, suporte e até ascensão social. Ao mesmo tempo, o medo e a violência se tornam companhias presentes. Desde que algumas rotas do tráfico saíram do eixo RJ-SP e começaram a passar pelo Acre, o assassinato de crianças e jovens aumentou em 183%. Essa informação aparece nos créditos finais do filme. Um lembrete de que a questão não será resolvida de uma hora pra outra e envolve outras estratégias, bem diferentes das utilizadas atualmente.

O cinema brasileiro segue vivo e atuante. Para nosso orgulho.

NOITES ALIENÍGENAS será distribuído pela Vitrine Filmes. Agradecemos a eles e a Sinny Assessoria pelo convite para a cabine de imprensa e a confiança no nosso trabalho.

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