Controverso e contraditório, o documentário UM SAMURAI EM SÃO PAULO tenta encaixar no mesmo lado do jogo japoneses e judeus, ignorando fatos históricos para criar uma narrativa dramática alienante
Escrito por Ana Paula Santos & Raphael Mussato
O karatê tem suas
origens na ilha japonesa de Okinawa. Também chamada de “a arte das mãos
vazias”, é um estilo de arte marcial que não utiliza nenhuma arma no combate.
Além da luta, o karatê também é uma filosofia, voltada para a formação moral do
indivíduo, onde valores como disciplina, paciência e cuidados com corpo e mente
devem ser internalizados e praticados em todos os momentos da vida.
No Brasil, o karatê começou a ser difundido nos anos 1970, quando a Associação Japonesa de Karatê enviou oficialmente ao país alguns mestres para ensinar e divulgar esta arte. A intenção da associação era mostrar ao ocidente as vantagens de uma luta que pode ser usada em defesa pessoal, em competições profissionais, atividade física cotidiana e estilo de vida.
No dia 30 de março chega
aos cinemas o documentário brasileiro UM SAMURAI EM SÃO PAULO, que retrata a
trajetória pessoal do mestre Taketo Okuda, um dos mais importantes e
respeitados mestres de karatê do mundo, que chegou ao Brasil ainda na década de
1970, instalou a sua academia no bairro de Pinheiros, e lá, durante cinco
décadas, se dedicou ao ensino e prática do karatê. Sua história é contada sob o
ponto de vista de uma aluna, Débora Mamber Czeresnia, a diretora e roteirista
desse documentário. Débora é neta de judeus poloneses que sobreviveram ao
holocausto e encontrou no karatê um ponto de equilíbrio e entendimento sobre
suas origens e a história de sua família. Essa é uma parte interessante de se
levar a narrativa, mas também é deveras controversa (e até contraditória).
Explicaremos isso melhor nos próximos parágrafos.
O filme inicia com a
narração do próprio mestre Okuda. Num português trôpego (mesmo após décadas
vivendo no Brasil), ele apresenta-se ao público afirmando que os japoneses já
nascem com o bushidô no sangue; como um povo escolhido, trazem em seu cerne
valores de honra, respeito, disciplina, retidão e coragem (tenham isso em
mente). Ele é o nosso protagonista e também será, em diversos momentos, o
narrador de sua história.
Como todas as famílias de trabalhadores nos conflitos armados de interesse burguês, a família Okuda também sofreu perdas durante o curso da Segunda Guerra Mundial, precisaram de muita força e coragem para suportar o período de escassez oriundo da derrota nipônica, sobretudo após os ataques nucleares dos estadunidenses. Não obstante, o Japão foi um dos países componentes do chamado Eixo e dividiu as trincheiras com os nazistas alemães e com os fascistas de Mussolini. Além dos interesses geopolíticos em comum, tal aliança entre esses países foi muito palatável à sociedade japonesa da época, acostumada a se vislumbrar como um povo "superior", que já nasce coberto de virtude ou, se preferir, com "o bushidô no sangue"; encontra grande simetria no discurso chauvinista da Itália e na eugenia presente no senso comum dos alemães. A diferença é que o império japonês já estava aclimatado a tal visão de mundo há muito mais tempo do que os seus então aliados.
Ignorando este pequeno detalhe, Débora
usa a história dos japoneses na guerra para traçar um paralelo com o que
aconteceu com os judeus poloneses no mesmo período, como se os motivos que
levaram os judeus poloneses e os japoneses a imigrarem para o Brasil fossem os
mesmos. Em primeiro lugar, historicamente falando, não existe nenhum paralelo
entre eles, haja visto que os judeus (não apenas os poloneses) foram
sistematicamente perseguidos e massacrados pelo nazismo.
O mais irônico entre
essa simetria proposta pelo filme é que o cabedal ideológico que foi motor do
genocídio contra o povo semita é o mesmo que justificou as atrocidades cometidas
pelos japoneses na Coréia e na China. Talvez as mulheres coreanas que se
tornavam escravas sexuais dos japoneses, bem como os trabalhadores chineses que
serviram de cobaias humanas para Hiro Ito (que adotou procedimentos tão
cruentos e sádicos que deixariam Menguele chocado), tivessem maior compreensão
e mais a dizer acerca da desumanização sofrida por organizações e países mais
poderosos.
A diretora passa por
cima dessas contradições, entregando-nos um roteiro e uma gramática audiovisual
a serviço de construir a sua própria bolha narrativa e enaltecer, de maneira
idealizada, a história, a vida e as crenças do mestre Okuda.
Mesmo com apenas 70
minutos de duração, o documentário é lento e arrastado. A diretora demonstra um
deslumbramento que não condiz com o que está na tela, não resistindo a menor
apreciação fria daquilo que o filme nos apresenta. O mestre é um excelente
lutador, não duvidamos disso em nenhum momento, além disso, ele está envolvido
com o karatê desde muito novo e sabe muito sobre essa arte. Apesar de sua
aparência e seus movimentos serenos, algumas de suas declarações incomodam os
ouvidos mais atentos e, alguns dos contextos que o envolve, marejam também os
olhos mais atentos. Além da própria fala inicial sobre o bushidô, outro momento
da narrativa dele nos deixou desconfortáveis. Em dado momento o documentário
nos mostra um pequeno cômodo de muita estima do mestre Okuda, trata-se de um
local onde ele guarda seus pertences mais preciosos: uma profusa coleção de
livros de história, filosofia e obras de arte japonesas, escritas em japonês e
feitas por japoneses. Tudo muito bem adornado por uma Katana e uma Tanto
forjadas há séculos, também por ferreiros japoneses. Sem precisar colocar em
palavras, o filme nos mostra com uma eloquência desconcertante que, além do
mínimo do idioma, o venerável ancião não fez esforço algum para absorver nada
que seja da cultura do país que o acolheu. Ele não veio aprender e trocar
experiências, veio ensinar. Afinal, o que nós, brasileiros, da periferia do
capitalismo, teríamos a lhe ensinar? Afinal, não temos a retidão, a disciplina
e a honra de alguém que já nasce com o bushidô no sangue. Devemos ser gratos à
sua generosidade de nós ensinar o modo certo de viver! Devemos agradecê-lo por
ele estar disposto a nos colonizar (contém ironia).
O sensei comenta que
pretendia deixar cada elemento que integra o seu refúgio de civilidade entre os
bárbaros para o filho, mas agora que não tinha mais filho homem, iria
distribuir para os amigos (o mestre tinha um filho que faleceu subitamente aos
38 anos). No entanto, já havia sido mencionado no início do documentário que o
mestre se casou no Brasil e teve um casal de filhos. Mais pra frente, é contado
que o mestre se casou uma segunda vez, e teve mais duas filhas. Essa fala do mestre
nos remete imediatamente a toda uma tradição machista e patriarcal do Japão que
perdura forte até os dias de hoje, impedindo o velho mestre de enxergar que ele
tem três herdeiras que poderia ter iniciado no karatê para quem sabe, no
futuro, garantir a continuidade da academia com mestres mulheres. A diretora
ignora a declaração do mestre com a maior naturalidade, e segue a narrativa do
documentário como se o mestre estivesse realmente totalmente sozinho nessa
jornada.
Walter Benjamin,
fundamental ensaísta marxista da primeira metade do século XX, irá nos lembrar
de que todo documento de cultura é, inevitavelmente, também um registro de
barbárie. Encontramos com profusão no cinema, na literatura e em todas as
manifestações artísticas e culturais, exemplos onde tal preceito elaborado por
Benjamin aparece de maneira bem explícita e pronunciada, no entanto, todas as
obras trazem esse DNA da barbárie consigo, ainda que de maneira sutil ou
involuntária. Tomemos este texto como exemplo. Ainda que o material não se
propusesse a tal análise, ainda seria um escrito confeccionado por um
brasileiro e redigido em português, ou seja, feito num país colonizado da
periferia do capitalismo, cujas informações que traz foram decodificadas pelo
crivo da linguagem do colonizador. Quase imperceptivelmente, a barbárie
estrutura o cerne deste artigo, é estrutural na sua execução.
O que encontramos em UM SAMURAI EM SÃO PAULO é a incrível história de um homem que dedicou a sua vida a ensinar, em um país estranho, uma arte marcial e SIM, ele o fez com excelência! No entanto, a forma piegas e deslumbrada utilizada para essa narrativa ignora pontos importantes e torna todo o conjunto desprovido de sentido político. A trama é toda salpicada por muita barbárie estrutural, como demonstramos e, ao abordar temas como preconceito, discriminação e extremismo, o documentário tenta travestir perseguidores de vítimas de um desastre humanitário, representados como relíquias a serem preservadas numa redoma de vidro. À diretora faltou a base material e histórica para colocar cada povo em sua prateleira correta, com a contextualização tão necessária nos dias de hoje, onde os discursos emocionados, que se alicerçam em bases corroídas, mais despolitizam do que contribuem para a construção de uma consciência que mova as pessoas para mudanças realmente estruturais e libertadoras.
Agradecemos muito a Sinny Assessoria e a Elo Studios pelo convite para a cabine de imprensa e a confiança no nosso trabalho.




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