A grandeza de BABILÔNIA não esconde um roteiro falho, mas a qualidade técnica segue sendo a principal qualidade do diretor Damien Chazelle
Escrito por Ana Paula Santos
Damien Chazelle gosta de um exagero técnico e tem apreço pela grandeza. Em seus filmes mais conhecidos podemos observar isso muito bem, embora tanto em Whiplash quanto em La La Land a parte técnica não seja o suficiente para sustentar um roteiro que, ou é problemático ou é água com açúcar. Quando foi anunciado o lançamento de BABILÔNIA, seu mais recente trabalho, já estávamos nos preparando para um filme tecnicamente impecável. Mas o roteiro e o desenvolvimento eram uma incógnita.
BABILÔNIA estreia nos cinemas em janeiro já super cotado para algum prêmio no Oscar 2023 e tem toda a grandiosidade técnica que só um filme do Chazelle poderia ter, e isso não é demérito algum. Ele é um diretor que sabe como combinar os diversos elementos cinematográficos de forma a criar algo único e autoral. Além disso, seu conhecimento musical é fora de série e se destaca em todos os filmes que dirigiu. Em sua nova investida, ele nos leva até a Hollywood dos anos 1920 numa viagem grandiosa de excessos e glamour, acompanhando alguns personagens-chave que estão vivendo tudo isso de corpo e alma. Conhecemos ali o empregado Manuel Torres (Diego Calva) imigrante mexicano, a atriz iniciante Nellie LaRoy (Margot Robbie - sempre maravilhosa), o ator consagrado Jack Conrad (Brad Pitt), o músico negro Sidney Palmer (Jovan Adepo), a cantora asiática Lady Fay Zhu (Li Jun Li) e a colunista social Elinor St. John (Jean Smart), que são algumas das figuras sonhadoras e ambiciosas que orbitam esse universo que estava testando todos os limites e tentando descobrir até onde era capaz de chegar.
O ponto central da narrativa é o imigrante Manuel Torres – o
Manny – que trabalha de faz-tudo para o dono de uma mansão que recebe as
maiores e melhores festas dos ricos e famosos da então iniciante indústria do
cinema de Hollywood. Ele deseja fazer parte desse mundo e tem a sua grande
chance quando ganha a simpatia do astro Jack Conrad, que o leva de acompanhante
no set de gravação do seu novo filme. Estamos então em 1926, o auge do cinema
mudo e das grandes estrelas do período. O cinema ainda era uma arte nova, muito
celebrada, mas ainda pouco profissional. Uma das sequencias mais impactantes
dessa primeira parte é justamente os bastidores da gravação de um filme. Num
grande vale se misturam protagonistas, diretores, cenografia, figurantes,
animais de grande porte, armas (de fogo e brancas, todas de verdade), bebidas
alcoólicas liberadas, maquiadores, figurinistas e assistentes desesperados,
tentando fazer o filme acontecer e lidando com todo tipo de acontecimento
aleatório que só essa época poderia render. No meio disso tudo, Manny consegue
lidar com alguns imprevistos e se torna uma figura constante nos sets,
aprendendo o que pode sobre esse mundo para quem sabe conseguir trilhar o seu
próprio caminho.
Sua amizade com Nellie LaRoy é outro aspecto base da narrativa. A jovem “caipira” que fala errado e tem comportamento considerado vulgar pela maioria quer ser uma atriz famosa. Sua chance de atuar em um filme grande aparece como um golpe de sorte e ela faz de tudo para chegar (e se manter) no topo. Embora não saiba o que isso pode representar a longo prazo, ela só sabe que nasceu uma estrela e precisa brilhar. E quem brilha aqui é Margot Robbie, que a cada filme se mostra mais e mais talentosa e deslumbrante. Infelizmente, o desfecho da personagem deixa a desejar. Como alguns arcos de personagem, o dela é mal finalizado e nos deixa um tanto decepcionados. Tudo o que assistimos da Nellie durante o filme e a entrega da atriz mereciam um desfecho melhor estruturado.
Com roteiro escrito pelo próprio Damien Chazelle, BABILÔNIA é uma verdadeira babel de cores, sons, acontecimentos e temas que funciona muito bem na medida em que serve para o diretor mostrar o seu domínio das técnicas, mas em alguns momentos pode confundir o expectador sobre as intenções do diretor e onde ele quer chegar com essa narrativa. A falta de foco e de um propósito claro, no entanto, não tira o brilho do filme, que consegue manter fixa a nossa atenção na tela e nos seus muitos acontecimentos. Chazelle nos pega pela mão e nos joga nesse mundo de sonho e caos registrados com a sua câmera que desliza leve e fugaz entre todos aqueles excessos. Durante pouco mais de 3 horas ele nos faz viver tudo isso, de maneira muito intensa. E não interessa se estávamos prontos para esse momento, ele simplesmente nos quer ali, e tudo o que podemos fazer é aceitar a viagem. Destaque para a trilha sonora assinada por Justin Hurwitz, que é um espetáculo à parte. Um jazz frenético, estimulante, vibrante, que emoldura as cenas com perfeição, como se tivesse nascido junto com o filme. Venceu (merecidamente) o Globo de Ouro de melhor trilha e não vamos estranhar se ganhar um prêmio ainda melhor.
De tudo o que vivenciamos em BABILÔNIA, só a parte final incomoda
de maneira mais séria. Em uma colagem de cenas de diversos filmes conhecidos,
desde grades obras dos anos 1920 até produções dos dias de hoje, o diretor
tenta nos mostrar a evolução do cinema e do nosso modo de apreciar e viver os
filmes. A questão, além do contexto em que essas cenas aparecem na trama, é: se
está falando do amor ao cinema e aos filmes, de quem seria esse amor? É do
personagem? É do diretor? É nosso? Sabendo que uma das abordagens da narrativa
é a magia do cinema, ficamos com a sensação de que o diretor pensa que o seu
público não seria capaz de entender a mensagem e colocou umas imagens para
facilitar a compreensão. Ficou estranho e cortou o clima no final.
O saldo do filme é muito positivo mesmo. Sua produção grande e brilhante, consegue se sustentar mesmo com os seus problemas de roteiro e desenvolvimento. Homenageia e também faz uma crítica não apenas ao que era o cinema nos anos 1920, mas ao que o cinema se tornou hoje. Claro que é uma crítica bem aos moldes de Hollywood, feito na medida para quem sabe faturar alguns prêmios nessa temporada. Não julgo, é o trabalho dele. Continuarei achando esse diretor bem pretencioso, mas nunca poderei dizer que ele não sabe o que faz.
Agradecemos a Paramount Pictures e a assessoria Atomica Lab pelo convite para essa cabine de imprensa e pela confiança no nosso trabalho.




Comentários
Postar um comentário