ELES VIVEM! e a lente do Materialismo Histórico desvelando a luta de classes
Escrito por Raphael Mussato
“O motor da História é a luta de classes”. Chegamos à segunda década do século XXI e aquilo que é ilustrado com perícia na obra “O Capital”, do filósofo germânico Karl Marx, emerge à nossa percepção de maneira cada vez mais notável. Não há necessidade de sairmos da segurança dos nossos muros alugados e nos aventurarmos cidade afora para vislumbrarmos as ruas cada vez mais abarrotadas de moradores sem teto, pessoas miseráveis e, cada dia mais, desesperadas. É fácil identificarmos a crescente desigualdade social num ambiente mais próximo a nós e mais controlado: os nossos boletos, cada dia mais dispendiosos, as contas que não fecham, nossos diplomas universitários emoldurados e empoeirados enquanto esquadrinhamos as ruas, horas a fio, no volante de um carro alugado a serviço de algum aplicativo de transporte.
Dado a esse nosso contexto atual, resultado direto das ações de desregulamentação econômica que inundaram a década de 1980, protagonizadas pelo então presidente dos EUA, Ronald Reagan, torna-se muito fortuita a lembrança de um longa-metragem, pouco recordado, lá do final da década de 1980: “Eles Vivem”, do talentoso cineasta John Carpenter. Rodado em 1988 e lançado no ano seguinte, este filme está longe de embriagar os nossos sentidos com sequências da magnitude daquelas que nos assombraram em “O Enigma de Outro Mundo” (1983), carece ainda da estética cheia de personalidade de “Fuga de Nova York” (1981), entretanto, a semelhança do mundo oculto e distópico proposto nesta trama com a nossa realidade é desconcertante.
A austeridade econômica, adotada
com tanta intensidade nessas três últimas décadas, canalizou o acúmulo de
capital a esferas cada vez mais restritas, além de, paulatinamente, ter
dilapidado e retraído o padrão de vida da classe média, portanto, tais fatores
tornam “Eles Vivem!” um material particularmente interessante à nossa
apreciação.
Nessa produção de Carpenter, acompanhamos John Nada (Roddy Piper), um norte americano médio e falido que viaja o país em busca de uma nova oportunidade para recomeçar a sua vida. John desembarca numa grande cidade e, ainda que com dificuldade, consegue um trabalho na construção civil e, graças ao seu colega Frank Armitage (Keith David) – homônimo ao pseudônimo adotado por Carpenter para assinar o roteiro – passa a viver numa ocupação de sem tetos que se sustenta graças a assistência dos membros de uma curiosa irmandade religiosa. Após certos dias de estabilidade, misteriosamente, a congregação é brutalmente atacada pela polícia, bem como o assentamento, e tudo é destruído. Buscando compreender o que acontecera, o protagonista empreende uma investigação, na qual o primeiro achado consiste em óculos muito peculiares encontrados nos escombros da igreja e, ao colocá-los, nosso herói descobre que esse objeto possui uma característica muito incomum: desvanece certos véus obscuros que encobrem a nossa percepção da realidade e desvelam ao olhar um novo e mais verdadeiro mundo, ainda que muito estranho e aterrador. Após tal constatação, o filme, alegoricamente, coloca o prosaico John Nada no vórtice de uma conspiração alienígena com objetivos nefastos e de escala colossal. Uma demonstração ipsis litteris do método materialista histórico e dialético, quando o aplicamos como crivo de análise à realidade.
Merece nossa atenção especial a cena de abertura do filme, quando John chega à cidade. Esse trecho traz consigo acertos do diretor que já nos permitem antecipar a essência de boa parte da narrativa vindoura. Ao iniciar a sua jornada, o protagonista caminha por cenários decrépitos e decadentes, que contrastam de maneira contundente, porém harmoniosa, dentro da gramática audiovisual proposta por Carpenter, com os suntuosos e opulentos arranha-céus presentes no local; tais imagens já denunciam ao expectador, mesmo nos minutos iniciais, a atmosfera de colossal desigualdade social que a narrativa desenvolverá. A própria premissa fundamental do protagonista também já nos é apresentada. Sem que o roteiro lance mão de diálogos expositivos, essas tomadas já nos dizem muito sobre o John Nada: ele não desembarca do trem numa plataforma, mas sim num ponto aleatório da linha férrea, o que nos leva a suspeitar que ele tem viajado clandestinamente; seu figurino é composto por roupas velhas, vulgares e desgastadas, além de escapar de sua mochila parte de um pequeno colchonete enrolado, encimando seus poucos pertences, e nos denunciando que o herói provavelmente já galgara muito chão sem ter ao menos um lugar fixo para dormir. A cinematografia nesses momentos usa uma paleta de matizes amarelados, tons envelhecidos, de sépia talvez, que em consonância com a música tema do filme executada nessa sequência, um blues, acrescenta ao material visual um tempero particularmente distinto de desesperança.
No decorrer do primeiro ato já é
estabelecida com eficiência a rotina de John na nova cidade, apresentada de
forma sucinta, porém, plenamente funcional para estabelecer esta premissa.
Acompanhamos como o protagonista é desprezado quando busca um emprego numa agência;
testemunhamos a sua invisibilidade diante de membros mais favorecidos da
sociedade e constatamos seu esforço laborioso e desgastante durante sua jornada
de trabalho num subemprego que arranja. Nesse trabalho, o protagonista conhece e
desenvolve uma amizade com o colega Frank Armitage, que lhe oferece um lugar
para morar e John, ainda que munido de certa relutância inicial, aceita. Sua
nova habitação situa-se num terreno sobre o qual despontam diversas construções
habitacionais, precárias e improvisadas, incrustadas na superfície árida do
lote e distribuídas aos amontoados, desrespeitando quaisquer simetria ou
harmonia, defronte a uma curiosa igreja. A referida composição cenográfica,
inevitavelmente, evoca-nos situações muito presentes na nossa
contemporaneidade, sobretudo nas grandes cidades, símbolos hegemônicos do
capitalismo, como o centro de São Paulo e toda a extensão de Skidrow, em Los
Angeles (ironicamente, a cidade sede da indústria cinematográfica
estadunidense, que inunda o mundo com a ideologia galgada em como “o
capitalismo deu certo”).
A composição de cena da locação
descrita no parágrafo anterior é exímia, pois aglutina no mesmo enquadramento
os pobres barracos da ocupação, estabelecida num proeminente declive (ou
aclive) e, ao fundo, as vultuosas e dispendiosas edificações da parte abastada
da cidade. Não obstante, o maior trunfo é a localização da igreja, cuja
arquitetura é constituída de linhas e formas notoriamente burlescas, situada –
não por acaso – exatamente no centro do plano e servindo como uma fronteira
visual entre as duas realidades antagônicas. As escolhas cenográficas do
Carpenter demonstram-se aqui muito cuidadosas, pois o anômalo conceito visual
da igreja impede que este prédio se conjugue com algum dos dois contextos dos
quais serve como divisor.
É a partir do segundo ato que o filme assume propriamente o seu tom. Até então, pelo que nos havia sido apresentado, não seria incabível concluirmos que estávamos diante do que poderia ser uma versão oitentista e mais insólita do que fora “Vinhas da Ira” – o filme mais improvável de John Ford – feito quase cinco décadas antes. No entanto, o drama esboçado nos primeiros minutos é rompido e descortina-se uma sátira social que bebe abundantemente nos conceitos estilísticos mais elementares dos filmes de ação mainstream que conquistaram maior sucesso nas décadas de 1980 e 1990, com direito a todos os clichês que impregnavam tais produções: hordas inimigos armados que disparam freneticamente nos heróis e só acertam o nada, pois o roteiro assim precisa; longas tomadas exaltando o(s) “mocinho(s)”, abnegados e destemidos, em posições grandiosas com suas armas de fogo em punho, tombando copiosos grupos de inimigos genéricos sem grandes dificuldades; as pequenas pausas na ação para valorizar as frases de efeito – uma delas, em específico, confesso, lembrou-me um daqueles memoráveis diálogos de “Stallone Cobra” (1986).
Tendo
isso em mente, de agora em diante, a nossa análise requererá um cuidado maior,
pois ignorando uma possível memória afetiva, essas convenções de gênero estão
indiscutivelmente datadas, portanto, seria fácil cairmos na tentação de
defini-las unicamente como um demérito do filme. É aí que devemos ter em mente
que “Eles Vivem” propõe-se, a priori, repito, como uma sátira. Isto posto, essa
escolha permite que os eventuais excessos narrativos acima mencionados não fiquem
desconexos na trama. A linguagem satírica assegura ainda que as alegorias e as
analogias ao capitalismo contemporâneo e à cultura de consumo sejam
apresentadas de uma maneira mais escancarada, trazendo consigo uma significativa
e muito bem-vinda carga irônica.
Tais escolhas, contudo, podem
trazer um entrave grave na interpretação da obra e um desvio sério na
compreensão de sua mensagem. É necessário termos um cuidado muito especial
nesse aspecto. Se sob um viés, John Nada serve como uma síntese arquetípica de
todos os trabalhadores precarizados e vilipendiados, sob outro, a trama utiliza
uma linguagem composta por uma gramática audiovisual típica de produções que,
historicamente, exaltam o triunfo individual em suas narrativas, glorificam a
jornada solitária do herói. É fundamental elencar tais elementos, sobretudo
numa obra crítica e que realiza uma autópsia tão precisa acerca do capitalismo
contemporâneo, uma vez que a materialidade nos mostra que qualquer mudança
significativa ou ruptura no sistema vigente só é possível através da luta,
organização e mobilização coletiva de uma determinada classe, jamais ocorrem
por meio de um ser especial, idealizado, “escolhido” e que, com suas
metralhadoras, põe abaixo, sozinho, toda a organização de um sistema de
produção. Atentando-nos sempre para esta armadilha semiótica, podemos seguir
com a análise.
Durante a apreciação do longa-metragem, torna-se cada vez mais difícil mascarar algumas das fragilidades do filme. Algumas são mais sutis, outras nem tanto, como é o caso do roteiro, uma vez que neste há profusas falhas que prejudicam a experiência do expectador. Chama a atenção também como alguns personagens com grande potencial tem o seu arco mal desenvolvido. A própria relação entre John e Frank nos é apresentada de forma apressada, bem como a motivação de Frank Armitage a assimilar as motivações de seu amigo e tomar parte em suas ações. Nos minutos iniciais do filme, por exemplo, Frank revela algo importante sobre a sua história pessoal, mas posteriormente, tais informações são completamente abandonadas. Isso sem mencionar as inúmeras conveniências que aviltam a narrativa: tecnologias que pousam nas mãos dos heróis e eles só aprendem a usá-las corretamente num dado momento crucial para que a narrativa possa transcorrer; serem tele transportados de uma maneira incomum e aleatória, mas irem parar exatamente no cerne dos acontecimentos mais relevantes. Essas pequenas e vulgares conveniências assomam-se com profusão no decorrer do longa, contudo, a que chama mais a atenção é quando John entra em contato com um determinado personagem de uma maneira completamente arbitrária e, sem que a trama nos apresente nada para justificar, o protagonista se afeiçoa muito a tal pessoa, quase obsessivamente, e ela, por sua vez, revela-se posteriormente como uma peça fundamental da grande conspiração.
A parte técnica é instrumentalmente construída. O trabalho de cinematografia de Gary B. Kibbe – que fora parceiro de Carpenter no seu projeto anterior e seguiria com ele em diversas produções subsequentes – é funcional e, em alguns momentos, notável. Destaca-se no uso cuidadoso das cores (ou na ausência delas), sobretudo na sequência do ataque policial ao assentamento, quando as tomadas longas e de câmera na mão aludem a um naturalismo documental, enquanto o uso imperativo do vermelho em alto contraste com o preto confere a essas tomadas um estilo particularmente célebre e carregado de tensão.
O design de produção, apesar de se distanciar daquele body horror acurado que consagrou o diretor, em certos momentos, concerne à produção um estilo singular, sobretudo nas cenas apercebidas pelo público sob o prisma dos óculos (em preto e branco). Uma vez com os olhos por detrás destas lentes, ao se observar, por exemplo, um cartaz outrora colorido, repleto de imagens agradáveis e pessoas felizes, o objeto revela ao observador a intenção da mensagem contida, disfarçadamente, nesses signos e faz isso da maneira mais crua e direta possível: simples letras pretas num fundo branco, frases diretas e imperativas ordenando as pessoas a trabalharem, se reproduzirem, ou ingressarem no serviço militar, por exemplo. A ligação entre esse aspecto da narrativa com a análise marxista – através do método materialista histórico e dialético – dos conceitos de infraestrutura e superestrutura é inevitável.
Após esses aspectos obscuros da realidade se desvelarem sob a percepção do protagonista, John se vê imerso numa gigantesca e sórdida conspiração, onde o planeta é, secretamente, controlado por uma classe de seres alienígenas que tem políticos, líderes (terráqueos) e os meios de comunicação como títeres capitulacionistas; estes, em benefício próprio, servem como articuladores dos interesses dessa estranha raça, em detrimento das demandas da esmagadora maioria. Pareceu familiar? Enfim, a burguesia. Vivemos num contexto em que uma ínfima parcela da população detém a propriedade privada dos meios de produção e possuem total capital político. Essas pessoas têm plena consciência sobre a que classe elas pertencem e como é fundamental que o restante das pessoas não possua esta mesma percepção, pois para se manterem no topo da pirâmide, é necessário explorar, alienar e expropriar todo os demais. Carpenter nos traz essa ponte narrativa alicerçando enredo através de duas classes de interesses antagônicos e irreconciliáveis, onde uma delas utiliza-se do seu arcabouço de poder para impedir que os dominados se deem conta deste conflito e permaneçam inertes, inundados de uma lavagem cerebral edificada em ideologias vazias e imateriais. A real face dos alienígenas, dada a cabo por uma competente direção de arte, assemelha tais seres a zumbis ou múmias grotescas, ruínas inúteis que parasitam e sugam o o melhor do nosso planeta e do restante da humanidade. A arte copiando a vida, ainda que de maneira tão alegórica, não poderia ter sido mais precisa.
“Eles Vivem” chega em 2023 como uma cínica alegoria à nossa realidade e ao nosso tempo e, mesmo polarizado com seus revezes de um lado e seu estilo artístico icônico do outro, certamente suscita a nossa reflexão, fustiga-nos a analisar a nossa realidade e as dinâmicas político-sociais que a regem, o nosso processo produtivo, além de ser um filme divertido para quem aprecia o gênero. Chegamos a essas alturas do século XXI onde as consequências dos mecanismos sociais vigentes expõem suas contradições tão explicitamente, que não necessitamos de óculos especiais para percebê-las, muito embora, muitos ainda permaneçam voluntariamente cegos. Não devemos contar, no entanto, com a intervenção quase divina de um herói ou de um único “cara durão” muito bem armado para alterarmos a nossa realidade, construirmos a nossa história, pois a nossa consciência e organização como classe, e, como consequência, a deflagração de um projeto revolucionário protagonizado por nós, trabalhadores, são as armas mais eficientes que possuímos.





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