TERRIFIER 2 renova o terror slasher, aproveitando com criatividade os maiores clichês do gênero, e nos entrega um vilão realmente assustador (mas também carismático)

Escrito por Raphael Mussato

Há quase cinco décadas, em 1974, Tobe Hooper concluía e lançava nos cinemas uma obra de terror disruptiva, que se debruçava num conjunto de elementos pouco comuns ao gênero até então; tínhamos um assassino sádico, que ocultava suas feições sob uma máscara confeccionada da pele das suas vítimas; havia o grupo de jovens despreocupados que, por um infortúnio ou irresponsabilidade, acabavam por cair nas garras deste vilão; o filme era repleto de cenas perturbadoras, cruentas e explícitas de torturas e assassinatos. Essa obra era “O Massacre da Serra Elétrica” e a ela é atribuído o mérito de inaugurar um novo subgênero do terror: o slasher.

Nos anos – até mesmo nas décadas – que se seguiram, esse novo método audiovisual de se fazer terror foi muito explorado e caiu indelevelmente no gosto do público. Orbitando as premissas básicas inauguradas por Hooper, vimos nascerem obras que se consagraram no panteão de grandes clássicos do cinema de horror, tais como “Sexta-Feira 13”, “A Hora do Pesadelo”, “Halloween”, entre muitas outras. Cada uma delas protagonizada por vilões muito característicos, assustadores, ameaçadores e, de certo modo, até mesmo carismáticos que, indubitavelmente, permaneceram eternizados no imaginário dos expectadores e na cultura popular como um todo. Talentosos e consagrados cineastas também assinaram obras icônicas dentro do slasher, tais como John Carpenter e Wes Craven.

No decorrer da década de 1980 o boom dos filmes que compunham este subgênero foi tão expressivo, que emergia daí outro elemento que também passou a caracterizar esse estilo de se fazer cinema: as sequências. Dessas sequências surgiriam as longas franquias e, de um filme para o outro, tornava-se cada vez mais nítida a queda de qualidade nas produções. Os cineastas que inauguraram as obras originais dificilmente continuavam trabalhando nos projetos subsequentes e a condução deles ficaria a cargo de profissionais menos talentosos e mais dispostos a aplicar a fórmula “caça níquel”, tão demandada pelos grandes estúdios, sempre a toque de caixa.

No início dos anos 1990, a decadência e a carência de inovações – tanto estilísticas como narrativas – nos slashers era notável, portanto, gradativamente os estúdios foram cessando os investimentos nessas obras e elas se tornavam cada vez mais raras. Além do desenvolvimento cada vez menos inspirado, outro elemento tornava-se comum nesse nicho do terror, as fórmulas enlatadas e previsíveis sobre as quais se fundamentavam tais produções. Wes Craven, cineasta responsável pelo primeiro “A Hora do Pesadelo” (1984), no entanto, não apenas notou que essas obras se tornavam cada vez mais formuláicas, como se apropriou dessas convenções desgastadas e as utilizou como um recurso metalinguístico em seus filmes. Em 1994, “O Novo Pesadelo – O Retorno de Freddy Krueger” foi o ensaio perfeito desta proposta artística para o que Craven faria dois anos depois em “Pânico”, filme que corresponde à última lufada de ar fresco e originalidade, tão necessária ao segmento, que podemos observar até então.

Com o passar dos anos, paralelamente à Sétima Arte, as contradições do capitalismo tardio foram se tornando cada vez mais acentuadas. A distribuição de renda mais desigual, a precarização do trabalho, o custo de vida e os itens mais básicos à sobrevivência se tornando mercadorias dispendiosas, fora a expansão constante do capital dilapidando os recursos naturais e conduzindo a humanidade para uma catástrofe climática, desencadearam um fenômeno psicológico nas gerações millennials e Z que era incomum aos seus progenitores: a falta de esperança no futuro, um terreno perfeito para florescer o culto à nostalgia. Ora, se o amanhã é incerto e sombrio, o passado e a infância se tornam um lugar seguro e acolhedor. Como toda obra de arte é, em última instância, uma representação poética do seu próprio tempo, não tardou tal característica permear o cinema de maneira progressivamente expressiva. Do início da década de 2000 para cá se torna cada vez mais comum a grande indústria de Hollywood direcionar seus esforços e seus recursos em remakes, reboots ou sequências de obras consagradas nas décadas anteriores; retomar histórias e personagens que as gerações atuais tinham presentes em suas infâncias. Os slashers, obviamente, não escapariam também desta nova conjuntura, pois quase todos os clássicos desse segmento tiveram algum remake ou reboot nesse período.

Paralelamente a essa exaltação ao passado, outro elemento começa a se fazer presente nos filmes de um modo significativo: a figura do “super-herói”. Essa apologia a uma figura quase paternalista, dotada de habilidades sobre-humanas e capazes de trazer uma salvação divina a uma humanidade fragilizada, também conversa perfeitamente com essa configuração tão carente de esperança que vislumbramos na nossa contemporaneidade.

Como Wes Craven fez na década de 1990, o jovem diretor Damien Leone repete agora em TERRIFIER 2. Observando a materialidade refletida nas obras do cinema maisntream, o cineasta apropria-se desses fatores e os traduz, através da metalinguagem, em sua obra mais recente, que estreia nos cinemas brasileiros dia 29 de dezembro.

Notamos aqui diversos clichês do gênero aglutinados no filme. Personagens genéricos, confusos e cujo desenvolvimento do arco narrativo é questionável, senão incoerente. Alguns “erros” de continuidade se amontoam e quase gritam ao expectador. Em circunstâncias comuns, tais decisões poderiam desabonar muito a obra (vide o que observamos no decorrer das décadas anteriores com as inúmeras sequências e os remakes dos filmes mais consagrados do cinema slasher), no entanto, a maneira como Leone compõe a linguagem audiovisual, fora a construção narrativa da sua produção, deixa muito claro que tudo isso é proposital e de que se trata de uma alusão direta a esses maneirismos construídos, ano após ano, nos filmes feitos sob a égide deste subgênero. 

O diretor Damien Leone, de TERRIFIER 1 e 2

A decupagem do filme, sobretudo na cinematografia mais granulada, nas cores e na trilha sonora repleta de notas destoantes vindas de sintetizadores, dialoga diretamente com esse culto à nostalgia, não fossem os gadgets tecnológicos contemporâneos, poderíamos facilmente afirmar que estamos diante de algo feito na década de 1980. Entretanto, não se trata aqui de referências gratuitas ou puramente fan service rasteiro, como notamos na maioria dessas obras que aludem ao passado, Damien toma posse de tais tendências e as subverte, apresentando-nos um vilão carismático, ameaçador e assustador. O trabalho e a entrega de David Howard Thornton como ART, THE CLOWN nos contemplam com cenas de horror arrebatadoras, indigestas e desconcertantes, que são capazes de despertar as mesmas sensações de quando fomos apresentados a Michael Myers ou de quando Freddy Krueger povoou o pesadelo de sua primeira vítima.

Vemos também a incorporação no filme dessa “superheroização a qualquer custo” que se enraizou nas produções audiovisuais e na cultura pop. Observamos que em diversas obras esse elemento é inserido e evidenciado, mesmo que não haja o menor contexto para isso. A série da “Wandinha” que o diga. Apropriando-se também deste fenômeno, o cineasta explora, de maneira bem sarcástica e debochada, na protagonista Sienna (Lauren LaVera). Ela, como uma boa final girl, é quem irá derrotar o sádico vilão? Sim... Mas como? Ora, não é super-heróis que vocês querem, público? Então a Sienna também terá superpoderes e fim de papo! Compreender que TERRIFIER 2 tem uma consciência bem lúcida desse elemento e o utiliza de forma satírica, é fundamental para a nossa apreciação da experiência. 

Em obras como “Halloween” e “Sexta-Feira 13”, por exemplo, há um fenômeno sobre os cruéis protagonistas que se tornou muito comum em grande parte dessas franquias; se nos primeiros filmes os assassinos se apresentam como frios e sádicos psicopatas, conforme vão emergindo as produções subsequentes, os mesmos acabam ganhando contornos sobrenaturais e de certa imortalidade, mais ou menos evidente. Ao analisarmos os dois filmes da franquia “Terrifier” – o primeiro é de 2016 – observamos que isso também acontece com o palhaço assassino. Se anteriormente ART, THE CLOWN nos é apresentado como um homem de mente doentia que coloca uma fantasia para barbarizar as pessoas, aqui ele ganha uma aura mística, forças malignas e inumanas operam através dele. Tendo em mente isso como um componente da fórmula clássica dos filmes slashers, o diretor o desenvolve com a mesma irreverência e deboche que faz com os superpoderes de Sienna.

Damien Leone nos apresenta uma produção repleta de cenas perturbadoras e agonizantes. Os assassinatos, alicerçados num horror físico, explicito e gráfico, geralmente são antecipados por sequências de torturas propositalmente prolongadas, algo que pode tornar o filme indigesto demais até para fãs veteranos do gênero. Não obstante, todo o contexto de linguagem e o trabalho impecável de atuação de Thornton, não raramente, nos desperta riso. Essa sensação ambígua de estarmos rindo diante de demonstrações tão dantescas de sadismo, uma espécie de culpa silenciosa, só demonstra o talento e a precisão do trabalho do diretor em construir a sua obra e desenvolver a maneira como ela irá conversar com o público.

TERRIFIER 2 chega aos cinemas seis anos após o filme que o antecedeu e conta com uma hora a mais, muito bem aproveitada, que o orçamento de produção mais generoso lhe permitiu. Apesar de possuir defeitos, o seu caráter inovador e o uso inteligente dos recursos metalinguísticos faz com que as qualidades do filme superem em muito as suas eventuais falhas. Num estilo de cinema que parecia morto, observamos o surgimento de um novo e poderoso clássico. 

Agradecemos a Sinny Assessoria e a Imagem Filmes pelo convite para a cabine de imprensa e a confiança no nosso trabalho.

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