A MORTE HABITA À NOITE mostra a desolação e a solidão de pessoas perdidas em uma cidade grande fria e cinzenta

O que dizer sobre o cinema produzido em Recife que já não tenha sido dito anteriormente? Falar de sua criatividade, inventividade, sua conexão com temas sociais importantes, a reflexão interior e exterior que essas produções motivam... tudo isso já é mais do que conhecido e se eu quiser comentar qualquer coisa a respeito, irei soar repetitiva. Então vamos focar no que interessa: novo filme brasileiro chegando nos cinemas, mais uma produção de Recife para nos encantar e emocionar.


A MORTE HABITA À NOITE tem roteiro inspirado na obra de Charles Bukowski e transpira melancolia por todos os poros. Da solidão e desalento de uma cidade grande surge figuras igualmente solitárias e desalentadas, marginalizadas talvez, decadentes quem sabe. No centro da narrativa conhecemos Raul, escritor a beira dos 50 anos que mora com a esposa Ligia em um prédio velho e cinzento. Quase sem dinheiro, eles tomam vinho barato e se alimentam de comida requentada. Após um evento trágico que deixa Ligia particularmente perturbada (um vizinho se joga de um dos apartamentos do prédio), ela abandona Raul, que fica sem casa e ainda mais sem rumo.

Não é difícil se sentir atraído por esse personagem, mesmo que ele pareça frio, cansado e sujo, algo na personalidade desse homem atrai o nosso olhar para a tela e nos faz questionar os caminhos da vida. A decadência que o cerca também nos mobiliza e nos comove. Como pode, nesse mundo tão globalizado, conectado e capitalista, alguém simplesmente não se importar com posses e conforto? Se contentar com um pão, um copo de bebida de procedência duvidosa e um colchão velho não parece ser normal em uma sociedade que valoriza tanto o TER e o MOSTRAR, mas o que é normal na sociedade? Raul está vivendo a sua vida da maneira mais digna que consegue, e isso de certa forma também conversa conosco e colabora para criar empatia.


Ao longo do filme vamos presenciar o encontro de Raul com a jovem Cássia, moça desgarrada da família, que perambula pelas ruas e bares, talvez fazendo alguns programas para sobreviver. Sua juventude e beleza é - literalmente - um ponto de luz. O encontro dessas almas marginalizadas que estão em constante flerte com a morte é um dos aspectos mais incríveis do filme. Você torce por algo que seja melhor do que eles vivem ali, embora nem a gente seja capaz de dizer o que poderia ser melhor pra eles. No fundo, sabemos que numa cidade grande hostil, fria e decadente, não existe salvação para pessoas que nem eles. Criaturas marginais que vagueiam numa cidade amarga que em nada se parece com as propagandas de agência de turismo. Talvez porque a vida da maior parte das pessoas seja qualquer coisa que não uma propaganda de agência de turismo. E encontrar força, razão e sentido para continuar vivendo, dia após dia, talvez seja o maior desafio de todos.

O roteiro e a direção do filme são de Eduardo Morotó, que já dirigiu alguns curta-metragem e agora estreia na direção de um longa, A MORTE HABITA À NOITE é de uma beleza desoladora e triste que merece ser vista, admirada e sentida. Estreia nos cinemas no dia 15 de dezembro, com distribuição da Vitrine Filmes. Agradecemos MUITO a eles e a Sinny Assessoria pelo convite para a cabine de imprensa e pela confiança no nosso trabalho.

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