O diretor Marcio Schoenardie, leva aos cinemas o filme OS BRAVOS NUNCA SE CALAM e mostra a força do cinema sulista em um roteiro que usa a comédia investigativa para mostrar o amadurecimento de dois irmãos
Um jornalista veterano está investigando um grande caso de corrupção numa cidade do interior do Rio Grande do Sul. Mas dias antes de lançar o livro que revelaria todos os detalhes sórdidos desse escândalo sem precedentes, ele morre em um incêndio que parece ter sido acidental. No entanto, os seus filhos Caio e Manoela encontram elementos que dão a entender que o pai pode ter sido assassinado e decidem ir em busca da verdade. E é entre teorias conspiratórias, pistas falsas, perseguições de carro, paranoias, correria e muita confusão, que essa dupla de irmãos vai se encontrar, conhecer um ao outro e descobrir um lado do pai que eles não sabiam que existia.
A comédia investigativa OS BRAVOS NUNCA SE CALAM é uma aventura sobre amadurecimento e cumplicidade entre esses irmãos (interpretados por Duda Meneghetti e Edu Mendas) que sempre tiveram uma relação distante, mas que encontram um objetivo em comum quando decidem investigar o que realmente aconteceu com o pai (aliás, não podemos deixar que mencionar que esse papel ficou ao cargo do grande ator José Rubens Chachá). Na relação meio desajeitada dessa família encontramos alguns elementos pontuais de humor que funcionam muito bem e fazem a estória andar com facilidade. O resultado é uma narrativa leve, que instiga a nossa curiosidade e não nos deixa desgrudar da tela. O filme estreia nos cinemas brasileiros dia 17 de novembro, com produção da Verte Filmes e distribuição da Lança Filmes. Essa é uma oportunidade única de prestigiar um filme brasileiro de qualidade, feito com orçamento pequeno, mas com muita competência, criatividade e amor ao cinema.
Tivemos a oportunidade de entrevistar o diretor Márcio Schoenardie por e-mail e ele nos contou detalhes sobre a produção do filme, as dificuldades de fazer cinema no Brasil dado o nosso contexto político atual e também falou da produção de cinema no Rio Grande do Sul, seu estado natal.
Agradecemos desde já ao Márcio pela disponibilidade e simpatia, a assessoria de imprensa e a distribuidora por nos possibilitar assistir ao filme e ceder os materiais de divulgação para produzir o material que agora vocês estão tendo acesso.
CINE FORA DO CIRCUITO - OS BRAVOS NUNCA SE CALAM abraça o gênero da comédia investigativa, algo não muito comum no Brasil. Você pode contar um pouco sobre como surgiu a ideia para esse filme?
Marcio Schoenardie - A ideia é do roteirista Tomas Fleck, que me foi apresentado por Davi de Oliveira Pinheiro, produtor (que inicialmente produziria o filme, mas por motivo de agenda saiu do projeto). No início, em 2014, todos os personagens que estão no filme já estavam lá, mas o ponto de vista era o do pai; depois passou a ser o do filho, era ele quem retornava à cidade; aí, na última versão, ficou a formatação que filmamos: Manuela ganhando a dianteira da história. Sempre defendi com os roteiristas (Tomas Fleck, Tiago Rezende, Grabriel Faccini com a colaboração da Ana Saki) que tínhamos que abraçar um gênero e não parodiar. Acho que o gênero não é tão incomum no Brasil, mas, sinto que muitas vezes é tratado como paródia. Nós não parodiamos, usamos os elementos e as regras e fizemos o nosso filme. Acho o roteiro maravilhoso, então eu só tinha que me policiar para não pesar a mão no humor, por exemplo, onde ele não existia.
CINE FORA DO CIRCUITO - O filme foi rodado no interior do RS mesmo, correto? Como foram as gravações e os maiores desafios que vocês enfrentaram para tirar esse projeto do papel?
Marcio Schoenardie - Adoro a magia do cinema! Na verdade, o filme foi rodado em ruas de Porto Alegre que parecem o interior. A grana era muito curta e ir para o interior e manter equipe em hotel ou deslocamentos muito grandes de carro estouraria o orçamento. O Rafa Zanchi era o produtor de locação e já saiu pra rua com esse olhar. Depois, eu e o diretor de arte, Martino Piccinini, fizemos uma varredura em locais que com o enquadramento certo poderíamos compor essa nossa cidade, mais tarde, tudo foi aprovado pelo Alberto La Salvia, diretor de fotografia. Talvez esse tenha sido o maior desafio. Certamente alguém de outro setor do filme, a produção executiva, por exemplo, poderá citar vários outros perrengues... Mas no geral, para mim, foi muito prazeroso estar no filme, no set, a equipe era maravilhosa de verdade. Acho que tudo fluiu muito bem. O orçamento era de um prêmio que fomos contemplados pelo edital Polo Audiovisual - Produção em Longa-Metragem 2014 no valor de 500 mil. A produção executiva (Clarissa Milford e Isadora Pillar) e os meninos da Verte que são roteiristas e também produtores mostraram muita objetividade em como devíamos conduzir o projeto. Como diretor, gosto de ser econômico e chegar cedo em casa, sem estourar diárias, mas é claro, precisa haver um bom planejamento.
Marcio Schoenardie - Cresci nos anos 80 assistindo a filmes na madrugada em uma época que não tínhamos streaming e tanto filmes disponíveis, a não ser nas extintas vídeo-locadoras. Então como não sabia se ia ver aquele filme de novo, sempre fixei cenas e acho até que refilmei de forma um pouco diferente elas na minha cabeça, esse é meu catálogo e fica meio embaralhado e gritando para sair sempre que estou num set. Nos Bravos não sei se peguei algo muito específico e direto, foi um mix que vai de Roberto Farias a John Carpenter, Flavio Migliaccio (As Aventuras com o Tio Maneco) e Joe Dante... O projeto sempre me soou como um filme que eu gostaria de assistir na Sessão da Tarde. Durante as discussões de roteiro, sentei com o Tomas Fleck, roteirista, e assistimos a uns pedaços de A Última Missão (1973) de Hal Hasby. Adoro todos os filmes dele! E, acho que, em muitas diárias eu desejei estar captando as coisas como ele captava. Mas isso no fim é só uma fantasia de cinéfilo. Tenho que ser consciente que hoje não tenho o talento que ele tinha. Mesmo assim, me deixava inspirar por esse devaneio. Assim como, tentava fazer tudo com a cartilha que aprendi com outros diretores que trabalhei como assistente ou dividindo o set. São profissionais que me ensinaram com os erros que cometi em outros trabalhos. Também vai haver erros nesse. Coisas da vida. Só erra quem faz e sou feliz demais em fazer.
CINE FORA DO CIRCUITO - Fazer cinema no Brasil nunca foi fácil, mas nos últimos anos o governo trabalhou intensamente para que não apenas o cinema, mas a cultura de um modo geral, fosse praticamente criminalizada. No meio de tanta paranoia, desinformação e violência, como manter as forças e o foco para continuar trabalhando?
Marcio Schoenardie - Ufa! E não é sobre isso também que os Bravos falam? Um
pouco sobre a paranoia que enxergamos e que sem atenção e foco podemos ser
contaminados (minha esposa, Márcia
Wirth, me proíbe de assistir muitos
vídeos no TikTok, por exemplo...). Mas acho que quem está atento e tem um olhar
crítico para essas narrativas que confundem o cotidiano, pode construir um futuro
transformador. Esses desatinos - e principalmente eles - deverão ser iluminados
e discutidos através da arte. Espero sinceramente que vire uma boa comédia.
CINE FORA DO CIRCUITO - Como foi trabalhar com o José Rubens Chachá, um nome tão conhecido nas telas e palcos brasileiros? Você já o conhecia antes de fazer o filme?
Marcio Schoenardie - Já digo que foi ótimo! Um grande cara! E um ator que eu
não sei classificar a não ser como extraordinário. Aprendi muito com ele, claro! Não sei muito como é a experiência de outros
diretores, mas eu vim nessa reencarnação
(cresci num ambiente espírita) para
aprender com os atores e outros profissionais bem melhores que eu. Na próxima
vinda à Terra, espero me lembrar um pouco destas lições e não ficar mais com a
cara de bobo de novo quando o elenco passar a cena e arrasar. O Chachá, por
coincidência, é pai de um amigo meu, o Pablo, grande diretor de fotografia. Um
dia fui assistir a uma peça em SP, comentei com a minha esposa que uma das
atrizes era irmã do Pablo e filha do José Rubens Chachá. Que eu me lembre, a
Marcia ficou com cara pensativa e então, peguei o celular e procurei uma foto
do Chachá. Mostrei pra ela, que me olhou e perguntou: Como você ainda não sabe
quem vai fazer o papel do pai no filme? - Foi ela quem o escalou! Eu sabiamente, como sempre faço, apenas
concordei.
CINE FORA DO CIRCUITO - O Ciclo de Pelotas, lá no início do século 20, foi muito importante para construir a identidade do cinema brasileiro.
Marcio Schoenardie - Essa pergunta me trouxe a memória do pôster do filme Sonho
sem Fim do Lauro Escorel. Uma boa referência sobre o momento que foi, sem dúvida,
muito importante para o Brasil. Acho que vou rever o filme, só assisti quando
era adolescente. Está ali o DNA que depois renasce nos “super-oitistas” nos
anos oitenta e que se fortalece através das produções dos anos noventa até
agora. Eu sou muito encantado com a minha aldeia. E é incrível a dimensão e diversidade que o
Brasil tem. Somos ao mesmo tempo uma e muitas aldeias. Acho que o que fica lá
dos anos 20, que ainda precisa ser quebrada, é a hegemonia comercial produzida
no Rio e SP, por exemplo. Claro que temos muitas produções em outras cidades,
mas precisamos ainda trabalhar mais para os brasileiros se enxergarem na tela
da forma tão rica e diversa que são. Mas no fim, acho que estamos num bom
caminho.
Marcio Schoenardie - Bem, eu estou morando em SP faz cinco anos. Mas claro que estou sempre com um pé em Porto Alegre. Acho que a produção lá segue aquecida (apesar de tudo que não foi feito pelo governo federal) graças aos profissionais que hoje têm uma longa caminhada. Sempre vou falar da Casa de Cinema de Porto Alegre, que foi minha principal escola, e que acho que é exemplo mundo afora, de verdade. E com as faculdades de cinema, desde o início dos anos dois mil, muitos realizadores e realizações têm surgido. Alguns explorando, mais do que antigamente, gêneros e assuntos que fogem dos problemas regionais que pareciam mais comuns no audiovisual sulista: campo, cidade e tradições. Tenho que puxar a brasa para o nosso assado, e dizer que a Verte Filmes, que é a produtora de Os Bravos Nunca se Calam, é formada por profissionais que estão trabalhando duro e com muita competência. Tiago Rezende é diretor de uma série sobre as competições de jogos eletrônicos, com roteiro dele, Tomas Fleck e a Ana Saki, produzida pela Casa de Cinema, que irá para a Globoplay. Gabriel Faccin fez o Complexo, série policial, junto com o Tomas e o Tiago. E acho que o grande filme do cinema gaúcho, dos últimos tempos, é de Hique Montanari: YONLU. Vale a pena conferir. Você pediu um nome e eu indiquei cinco. E há certamente muitos outros que ainda vamos descobrir.
MARCIO SCHOENARDIE é diretor e roteirista. Adora histórias bem contadas, de preferência com alguma diversão. Com uma carreira de mais de 20 anos dedicada à produção audiovisual tem na bagagem curtas, longas, e séries para TV premiadas, como Histórias Extraordinárias (New York Festival’s Film & Video Award), Doce de Mãe (Prêmio Emmy Internacional) e Rotas do Ódio (The IndieFEST Film Awards na categoria Award of Excellence) e a mais recentemente lançada Não Foi Minha Culpa.
.jpg)

.jpg)
.jpg)
Comentários
Postar um comentário