Entrevista com os diretores do filme brasileiro ENQUANTO ESTAMOS AQUI
Por Ana Paula Santos
Faz alguns anos que acompanhamos o crescimento dos filmes produzidos em Minas Gerais. Obras como Ela Volta Na Quinta, No Coração do Mundo, Temporada e, mais recentemente, Marte Um, mostram a qualidade do audiovisual mineiro, repleto de referências únicas, mas que ao mesmo tempo conversam com todos os brasileiros.
Dali até a conclusão do filme foi um processo longo – cerca de 3 anos. As filmagens começaram no outono de 2015 e para nós, filmar naquela cidade que não era a nossa, foi uma forma de fazer parte dela, de descobri-la. Desde o início havia a necessidade de filmar, era algo que tinha a ver com a ordem do desejo e da presença. Guiados por esses sentimentos e pela atmosfera produzida pelas imagens que estávamos fazendo, começamos a imaginar a narrativa do filme. Assim, neste caso, o processo de escrita do roteiro (juntamente com a pesquisa de textos) em Enquanto estamos aqui foi feito ao mesmo tempo que a filmagem, a edição e a seleção de nossas imagens de arquivo pessoais. As diferentes fases de produção foram fundidas no tempo.
Apesar de seu aspecto documental, a narrativa do filme foi construída de forma que a ficção pudesse emergir e ganhar independência de nossas experiências pessoais, ampliando assim o horizonte fílmico e chamando a atenção para seu aspecto sócio-político. Nesse sentido, a ficção surge como uma forma de nos aproximar das nossas personagens, das suas condições de imigrantes, de seus sentimentos e de suas vozes – resistindo ao nosso mundo contemporâneo onde os muros de divisão e a xenofobia aumentam a cada ano com leis migratórias mais rígidas na maioria dos países.
ENQUANTO ESTAMOS AQUI é um filme muito particular e sua linguagem pode causar estranheza em quem não está acostumado com essa forma de expressão. Ao mesmo tempo, seu roteiro fala de sonhos, lutas e amor, temas quase universais. Como foi equilibrar essa “ousadia” da linguagem de forma a fazer a mensagem do filme chegar ao maior número possível de pessoas?
CLARISSA CAMPOLINA E LUIZ PRETTI: - Em uma mistura de ensaio cinematográfico, diário, ficção literária e colagem, “Enquanto estamos aqui” conta a história de Lamis, imigrante libanesa que vive em Nova York, e Wilson, brasileiro que vive ilegalmente na mesma cidade. As imagens e o som vagueiam. Eles vêm e vão da crítica social a pontos de vista muito mais pessoais e poéticos. Através da leitura de cartas, trechos de textos e um narrador em terceira pessoa, acompanhamos a vida das personagens e uma jornada em seus medos, desejos e alegrias. Diferentes vozes se somam para juntar as complexidades da narrativa e o que está ao seu redor. Sentimos o amor entre Lamis e Wilson crescer através de sua relação com a atmosfera urbana: um horizonte moldado pelos prédios, ruas lotadas, luzes por toda parte, janelas que mostram a vida de outras pessoas. Intimidade e comunidade (o privado e o público) estão emaranhados. Para ampliar essa experiência e evitar a personificação, o filme raramente mostra os próprios personagens. O pessoal e o universal existem em relação um ao outro.
CLARISSA CAMPOLINA E LUIZ PRETTI: - Movidos pelo desejo de nos contrapor às narrativas recorrentes sobre imigrantes, tínhamos a intenção de construir estórias particulares e, assim, nos aproximar dos nossos personagens, do seu cotidiano e sentimentos. Para isso, lemos sobre o tema e conversamos com muitas pessoas que imigraram por diferentes motivos. Mas nas nossas conversas fomos em busca das “pequenas” histórias dessas pessoas, de casos comuns. Nossa aposta era que uma sensação de calor; um som de uma sirene de fábrica; um cheiro de uma comida; poderia fortalecer tanto a construção das nossas personagens, como a identificação do espectador com elas. Além disso, a entrada no projeto da atriz Mary Ghatas - refugiada sírio-libanesa, que vive em Belo Horizonte há alguns anos - nos orientou e nos inspirou na construção de sua história.
Como é trabalhar em dupla na direção de um filme? Vocês já tinham uma ideia bem definida do que queriam ou precisaram ajustar as visões individuais ao longo do tempo?
CLARISSA CAMPOLINA E LUIZ PRETTI: - No início tínhamos uma ideia, uma imagem e um desejo de fazer um filme que fosse descoberto ao longo de seu processo. Um filme com um modelo de produção “caseiro” onde o tempo, a possibilidade de escrita, de conversa, de pesquisa, orientasse os caminhos que seguiríamos. Um filme que era construído na sala de montagem, a partir de imagens feitas para a obra, mas também de imagens e sons de nossos arquivos pessoais. Um filme que permitisse o risco e o improviso. Para isso era necessário muita escuta e conversa entre a dupla de direção e, também, muito respeito e confiança. Claro que ao longo do processo tivemos embates e divergências, mas acho que a gente entende o cinema como esse lugar de troca e deslocamento das nossas visões individuais, como esse espaço de partilha e construção coletiva.
Levando em conta o que estamos vivendo hoje em dia, com a direita no poder, o desmonte da cultura e da educação, além de todo o resto, houve algum momento em que as dificuldades bateram tão forte que vocês pensarem em desistir de tudo? Como lidaram com isso?
CLARISSA CAMPOLINA E LUIZ PRETTI: - Desistir não é uma opção pra gente. Nós estamos acostumados a ter que lutar a cada filme. Mais do que nunca precisamos manter nosso cinema vivo, encontrarmos formas de driblar os ataques diários e levarmos adiante nossas realizações. “Enquanto estamos aqui” é um filme realizado com um orçamento que é menos de um quarto do valor de filmes considerados de baixo orçamento. Resistir ao atual contexto de violência contra a cultura como o que estamos vivendo é um grande desafio que encaramos nesse momento e demanda que sejamos mais unidos, compartilhando as experiências e estratégias para conseguir produzir e juntos pensarmos como fortalecermos o cinema para que o desmonte seja mais difícil de ocorrer.
Qual foi o momento mais emocionante que vocês viveram enquanto faziam esse filme?
CLARISSA CAMPOLINA E LUIZ PRETTI: - Sendo totalmente sinceros, todos os momentos foram emocionantes. Passamos alguns anos trabalhando no filme e a cada momento ele nos proporcionou encontros incríveis e trocas inesquecíveis com pessoas que tanto nos sensibilizaram e nos ensinaram. É muito emocionante poder realizar algo que nos coloque em contato com outras culturas, outras expressões e vivências. Seria impossível mensurar o quanto aprendemos ao longo do processo de realização. Junto disso, tivemos a oportunidade de um cotidiano criativo e amoroso. Foi um grande privilégio.
Recentemente, o filme MARTE UM foi escolhido para representar o Brasil na tentativa de uma vaga para disputar o Oscar do ano que vem. Isso legitima ainda mais a força do cinema feito em Minas Gerais, que vem numa crescente de bons trabalhos nos últimos anos e diversos nomes de destaque. A que vocês atribuem esse momento?
O cinema mineiro sempre teve muita força. Os filmes que são possíveis hoje fazem parte de um processo histórico que vem pelo menos desde Humberto Mauro. Há também uma vantagem em estarmos fora dos grandes centros de produção de cinema de mercado, pois a liberdade criativa proporciona um ambiente onde obras de força inovadora possam nascer. Tudo isso aliado a políticas públicas de incentivo cultural remanescentes dos governos do PT, que possibilitam não só a realização dos filmes, mas também a formação de profissionais locais que se desenvolvem a cada trabalho, em que o aprendizado é coletivo.




Comentários
Postar um comentário