A beleza do amor e a dor de uma psique dilacerada dão o tom no emocionante ESPERANDO BOJANGLES

Escrito por Ana Paula Santos

Existem diversas formas de se contar histórias de amor no cinema. Desde que o cinema existe, o amor já foi cantado, dançado, narrado, mostrado e ilustrado das mais diversas formas. Algumas deram certo, outras podem até não ser tão boas, mas quando se trata desse sentimento, nenhuma narrativa pode ser desprezada, principalmente quando ela transborda beleza e sinceridade.

Inspirado no livro de mesmo nome (escrito por Olivier Bourdeaut e best seller na França), o filme ESPERANDO BOJANGLES, que estreia essa semana nos cinemas, nos prende a atenção desde os primeiros segundos, ao mostrar um grupo de ricaços à beira mar na Riviera Francesa em 1958. Logo conhecemos Georges (Romain Duris, de Uma Nova Amiga), um rapaz carismático que transita entre os grupos endinheirados contando histórias mirabolantes sobre a sua origem. É nesse lugar que ele conhece a deslumbrante Camille (Virginie Efira, de Benedetta) e se apaixona no mesmo instante. O que Camille tem de linda, tem de intensa e imprevisível, mas Georges (com a sua imaginação muito fértil) embarca nessa viagem sem saber o destino, apenas que quer Camille ao seu lado.


Os anos passam e agora o casal mora num lindo apartamento em Paris e são pais do garoto Gary, de oito anos, uma criança inteligente e repleta de imaginação. Eles adoram festas e música e sempre recebem muitos amigos no apartamento, para muita dança e felicidade. O casal segue tão apaixonado quanto no primeiro dia, mas existe algo em Camille que a desconecta da realidade de uma maneira perigosa. E Georges vai fazer de tudo para não deixar que a mente de Camille a destrua.

O filme transita com facilidade entre a fábula romântica e o drama contemporâneo, méritos do diretor Régis Roinsard (Os Tradutores) que comanda tudo com uma mão firme e grande sensibilidade. O design de produção reflete bem a época em que ele se passa e o entrosamento e a química entre os atores é qualquer coisa de sensacional. O primeiro ato especificamente tem uma atmosfera que me lembrou muito a dinâmica do filme PEIXE GRANDE, com as cores e a forma da narrativa, chegamos até a duvidar se estamos vendo o dia a dia do casal ou um fruto da imaginação deles.


Uma das grandes forças do filme é retratar uma linda história de amor que começa de repente e segue firme, mesmo diante de algo tão pesado quanto a saúde mental de Camille, que se deteriora de uma maneira pesada e que dói muito fundo em quem assiste. Diferente de outros filmes que abordam transtornos mentais, onde quem padece é o homem, e à mulher cabe o papel de ficar ao lado protegendo e cuidando, aqui é Georges que faz de tudo para manter Camille sã e salva. Enxergamos bem o que ele está sentindo e sofremos com ele, assim como sofremos com a instabilidade de Camille e com a criança, que assiste a tudo, mas pouco pode fazer para ajudar.

Não é mencionado diretamente, mas as características de Camille apontam para um possível transtorno psicótico. Que se originou em sua infância difícil e muito pobre. Isso explicaria a dificuldade dela em encarar alguns aspectos básicos da realidade e da convivência social, como pagar impostos e levar o filho pontualmente para a escola todos os dias. A falta de uma rotina e uma estrutura mais fixada na realidade deixa Camille vulnerável. E quando a realidade se apresenta de uma forma mais direta, ela não consegue responder sensatamente. A partir disso, o filme abre um debate não apenas sobre a força do amor e da compaixão, mas também sobre questões a respeito do entendimento da psique do ser humano e quando comportamentos que são encarados como “traços de personalidade” podem esconder uma doença séria, que precisa de acompanhamento e tratamento específico. Não é o objetivo do filme nos dar alguma lição sobre o assunto, mas mostrar como essa questão pode estar presente em qualquer lugar e destruir até o mais perfeito amor. 

ESPERANDO BOJANGLES é uma história de amor falsamente leve. Seus momentos divertidos escondem um conjunto de aspectos técnicos e emocionais que se somam numa obra onde é impossível permanecer indiferente.

O filme estreia nos cinemas brasileiros com distribuição da California Filmes. Agradecemos a eles e a Sinny Assessoria pelo convite para a cabine de imprensa e pela confiança no nosso trabalho. 

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