Conflitos rasos da classe média dominam NO OUTRO ENCONTRO VOCÊ

Escrito por Ana Paula Santos

Confinar personagens em um único ambiente até que eles sejam obrigados a confrontar uns aos outros e a si mesmo não é uma ideia original no universo do cinema, mas costuma funcionar muito bem, desde que tenham bons personagens interagindo entre si (estão aí grandes sucessos do Roman Polanski que não me deixam mentir). Em NO OUTRO ENCONTRO VOCÊ, filme brasileiro escrito e dirigido por André Bushatsky, encontramos quatro personagens que vão passar o réveillon em uma casa de campo no interior. Bia e Marcelo são irmãos e estão passando por momentos particulares da vida: ela não consegue desenvolver o seu trabalho como artista plástica e ele já investiu em alguns negócios próprios que fracassaram. Junto com eles, o casal Michele e Rodrigo estão em crise, pois não conseguem ter um filho juntos. Rodrigo também está com sérios problemas financeiros que esconde da esposa. E é no ambiente isolado dessa casa que os personagens precisarão enfrentar os próprios fracassos para seguir adiante no ano novo e quem sabe mudar o caminho das suas vidas. 


A proposta do filme é bacana, mas esbarra em algumas questões que particularmente me incomodaram bastante. A primeira e mais grave é a atmosfera white people problems que cerca todos os personagens. Os dois irmãos são de família rica (o pai é dono da casa de campo onde estão) e claramente ainda são dependentes do pai, ela para estudar artes no exterior; ele para bancar suas ideias empresariais mirabolantes. Ambos são mimados e imaturos, embora demonstrem isso de maneira distinta. A dinâmica do casal é mais complexa, mas também estamos diante de adultos que não aprenderam a resolver seus problemas e preferem fingir que está tudo sob controle, enquanto se iludem com o status social. O roteiro tenta, de todas as formas, criar um laço de afeto em nós e os personagens, mas acaba se amparando em saídas fáceis para a resolução dos conflitos que vão surgindo. Com isso, se abre lacunas no andamento da narrativa que acabam nos distanciando ainda mais dessas pessoas. Conforme o filme avança, nos importamos cada vez menos com o que vai acontecer naquele lugar. Eles vão se entender ou vão brigar até a morte? Ninguém liga. 



Todo o drama que poderia emergir da situação em que cada um se encontra e do embate entre eles se torna irrisório porque percebemos que todos eles são adultos não crescidos, que nunca passaram por nenhuma dificuldade na vida, pois tinham quem o amparassem financeiramente. Tudo o que é exposto ali soa artificial e muito distante da realidade da grande maioria da população brasileira e não tem como deixar isso passar em branco. Fica fácil ter “grandes” ideias empreendedoras quando não é o seu dinheiro que está em jogo, assim como é fácil falar que o outro só se preocupa com o trabalho sem se dar conta que é esse trabalho do outro que banca os seus luxos. O que vemos na tela em quase 90 minutos de filme é um microcosmo da medíocre classe média brasileira, afundada em angústias rasas e quase fúteis, sem nada a oferecer a quem está do outro lado.
 


Diante de tudo o que vivemos nos últimos anos, a última coisa que a gente precisa no cinema brasileiro é assistir gente branca e bem nascida tentando fazer parecer que os dramas deles são os dramas de todo mundo. Porque, vamos combinar, não são mesmo. 


NO OUTRO ENCONTRO VOCÊ tem distribuição da Bretz Filmes e chega nos cinemas dia 29 de setembro. Agradecemos muito a Sinny Assessoria pelo convite para a cabine de imprensa. 

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