Escrito por Ana Paula Santos
Os tempos atuais mostram dois movimentos opostos quando o assunto é trabalho: de um lado, grandes corporações tentando de toda forma monopolizar os meios de produção de determinado produto. Esse monopólio garante a exclusividade e a produção industrializada garante a quantidade e o lucro da empresa. Do outro lado, encontramos pequenas empresas (algumas de origem familiar) que procuram manter métodos artesanais de produção. A produção é em menor quantidade e nem sempre o lucro é grande, mas a sua qualidade é diferenciada. Algumas seguem receitas antigas e não é muito difícil esses produtos terem uma personalidade única.

A comédia francesa ENTRE ROSAS, que entra em cartaz no próximo dia 1° de setembro, com distribuição da California Filmes, mostra um pouco como a máquina do capitalismo e do monopólio ataca pequenos produtores, precarizando o trabalho e obrigando essas pessoas a se desfazerem dos seus negócios. Na trama, acompanhamos uma pequena produtora de flores que está prestes a decretar falência e é assediada por um poderoso concorrente, a empresa Lamarzelle. Com um método artesanal de trabalho, Eve Vernet (interpretada por Catherine Frot) se recusa a industrializar o seu ofício, o que prejudica as finanças de modo quase irremediável. Para tentar contornar a situação, a sua secretária contrata três 3 pessoas que estão em processo de ressocialização e não entendem nada de flores, A partir disso surgem situações que vão unir essas pessoas num laço de amizade e os fortalecer para trabalharem e não se renderem a essa grande corporação, que simboliza tudo o que eles não confiam no mundo.

Com direção de Pierre Pinaud (roteiro escrito pelo próprio, com Fadette Drouard), o filme tem a típica elegância francesa, acentuada pela beleza e o charme das rosas cultivadas quase artesanalmente por Eve, que aprendeu o ofício de florista com o pai e mesmo 15 anos após a morte dele, carrega o sobrenome da família na empresa e trabalha muito para que este volte a ser um nome grande no mercado. Enquanto isso, seu concorrente maior é dono de uma grande corporação e só está interessado em ter o monopólio do maior número possível de espécies diferentes de flores, pois sabe que isso vai diminuir a concorrência que ele enfrenta atualmente.

Entre situações divertidas e outras mais tensas, é possível entender como ocorre o sufocamento dessas pequenas empresas, que vão aos poucos ficando sem dinheiro para comprar o material que garante a qualidade do seu produto e entram em um ciclo de dívidas, empréstimos, demissões, redução de produção, até não sobrar nenhuma outra alternativa que não seja a falência. No caso da nossa heroína Eve e seus "funcionários" (importante observar: representam figuras que costumam ser desprezadas pelo mercado de trabalho - um jovem ex-presidiário, uma moça com sintomas de síndrome do pânico e um homem com mais de 50 anos). É uma briga de Davi contra Golias, onde prevalece a honestidade e a coragem de manter a integridade independente dos boletos. É a luta de uma mulher corajosa (e um tanto teimosa) que não está disposta a abrir mão dos seus valores morais.
Quando se fala dessa relação trabalho e mercado, é muito importante que a gente entenda que a precarização do trabalho beneficia o sistema capitalista, pois ao mesmo tempo que reduz a concorrência, produz mão de obra barata. As pessoas, que antes tinham a sua fonte de renda, agora precisam se sujeitar às condições de trabalho que podem ser (e normalmente são) mais precarizadas do que viviam antes. O grande empresário, ao contrário do muitos dizem por aí, não dá empregos, mas contrata a mão de obra do trabalhador para adquirir lucros. Muitos lucros.
Vivemos em um tempo em que se faz necessário questionar o nosso lugar na sociedade e o que pode ser feito para reduzir (ou quem sabe eliminar) desigualdades e privilégios. Mesmo quando falamos de uma comédia aparentemente despretensiosa, o tema se mostra presente e, se podemos discutir o assunto, por que não fazê-lo?
ENTRE ROSAS pode não ser o exemplo mais perfeito para abordar essa questão, pois soa ingênuo em diversos momentos, mas isso não interfere no debate, ao contrário, só o estimula. Pierre Pinaud fez um ótimo trabalho nessa produção. É um filme que encanta visualmente, tem atores carismáticos e muito entrosados em cena e é divertido de verdade. Vale a pena assistir e quem sabe, alimentar a revolta de classe que existe - mesmo que discretamente - dentro de cada um de nós.
Aproveitamos o espaço para agradecer a California Filmes e a Sinny Assessoria pelo convite para a cabine desse filme.
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