A esperança no futuro e a força da família são as marcas do filme brasileiro MARTE UM

Por Ana Paula Santos

Em uma noite estrelada de domingo, em outubro de 2018, o jovem Deivid olha para o céu da periferia de alguma cidade brasileira. Ao fundo, os gritos e fogos de artifício anunciam o outrora impensável: Jair Bolsonaro acaba de ser confirmado vencedor do segundo turno da eleição para presidente do Brasil. O que vamos acompanhar a partir desse momento é a vida de Deivid e sua família (pai, mãe e a irmã mais velha) batalhando para viver, sobreviver e conquistar os seus sonhos em um contexto político e social que não é nada favorável para negros, pobres e honestos. 

O filme MARTE UM, primeira direção-solo do cineasta Gabriel Martins (em 2019 dirigiu “No Coração do Mundo” ao lado de Maurílio Martins), também responsável pelo roteiro, nos apresenta com sensibilidade uma família brasileira que segue os seus dias pós outubro de 2030 tentando não se abalar com os rumos nefastos do país. Em destaque está o garoto Deivid, que quer ser astrofísico e participar de uma missão que vai colonizar o planeta Marte em 2030. Seu pai, no entanto, o prepara para ser um grande jogador de futebol (e de preferência jogar no Cruzeiro). Wellington é porteiro em um prédio de alto padrão e convive diariamente com uma realidade muito diferente da sua. Sua esposa chama Tércia e é uma dedicada e amorosa dona de casa que começa a ter crises de angústia após um acontecimento específico. Para completar a família temos a estudante universitária Eunice que quer morar com a namorada e não sabe como contar aos pais. Cada integrante dessa família carrega em si o microcosmo da nossa sociedade naquilo que ela tem de melhor: a coragem de sonhar e a vontade de buscar esses sonhos. 


A direção é conduzida de uma maneira singela e cuidadosatrazendo cores e tons que alternam entre a melancolia, a tristeza e o aconchego. Seus muitos planos fechados nos aproximam dessas pessoas, mas não invadimos o espaço delas em nenhum momento. Aqui somos espectadores atentos e confidentes sutis de uma realidade que de certa forma também é nossa, de cada trabalhador ou estudante que se sacrifica todos os dias para ter uma vida minimamente decente. Eles convivem, se gostam, discutem, entram em conflitos, mas permanecem unidos não porque a moral social obriga, mas porque eles se amam e se admiram de verdade. 


Marte Um (Mars One) é o nome do projeto criado pelo engenheiro holandês Bas Lansdorp que pretende colonizar o planeta Marte a partir do ano de 2030. É esse lugar ambicioso que Deivinho (como é chamado pela família) quer ocupar. Com esse sonho, Deivinho simboliza todos os brasileiros que enxergam as dificuldades que estão à sua volta, mas não desanimam e seguem em frente, encontrando nos seus uma força extra quando o desânimo bater.  


O diretor e roteirista Gabriel Martins
A produção é assinada pela Filmes de Plástico e coproduzido pelo Canal Brasil. O filme vai disputar a vaga para representar o Brasil no Oscar, na categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira. A distribuição é da Embaúba Filmes, a quem agradecemos (junto com a Sinny Assessoria) pelo convite para a cabine online.

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