O filme GAROTA INFLAMÁVEL despreza qualquer tipo de papel social. E isso é incrível!

Autora: Ana Paula Santos

Desde que o mundo é mundo, cabe as mulheres o esforço para se enquadrar em regras, convenções e conceitos morais criados com o único objetivo de cercar e oprimir a personalidade feminina. O que acontece quando uma mulher decide viver uma única regra, mas que vai contra tudo o que a sociedade prega?


O filme “Garota Inflamável”, dirigido pela cineasta alemã Elisa Mishto, narra o encontro de duas jovens mulheres que estão em extremos opostos da vida: Julie (Natalia Belitski) se recusa a fazer parte de qualquer coisa que pareça sociedade. Não tem amigos, não trabalha, não estuda, não faz nada além do que tem vontade (e ela não tem vontade de fazer nada). Seu dinheiro, vindo de uma herança dos pais, é administrado por um contador e ela só usa quando lhe convém. Agnes (Luisa-Celine Gaffron) é enfermeira em um hospital psiquiátrico. Casada e mãe de uma menina pequena, ela está sempre se esforçando para estar de acordo com os papeis sociais de mãe, esposa e profissional, embora nitidamente não consiga se enquadrar em nenhum deles.

Quando o dinheiro da herança acaba, Julie é intimada pela sociedade (aqui representada pelo diretor do hospital psiquiátrico e pelo contador – ambos homens, vale ressaltar), a arrumar um emprego e adotar uma vida social “normal” que vai contra tudo o que ela acredita. Nessa busca por preservar a própria identidade, Julie leva Agnes a pensar e contestar os seus papeis e a priorizar aquilo que ela é de verdade, e não o que esperam que ela seja.


Em um primeiro momento, Julie pode ser percebida como uma garota mimada que se deu ao luxo de ter um comportamento estranho porque o dinheiro lhe dá suporte, mas é quando ele acaba e surgem as dívidas e as pressões externas que percebemos o quanto Julie acredita naquilo que vive e não está disposta a fazer concessões. Sua força não se mostra através de gestos largos e discursos panfletários. É o NÃO dito secamente, o desdém e as respostas rápidas e sagazes que ditam as regras do jogo que ela criou e não está disposta a perder.

O “não fazer nada” da Julie representa o modo extremo como ela se recusa a pertencer a sociedade e a aceitar os rótulos. Não existe discussão filosófica aqui: simplesmente Julie decidiu que, independente do que aconteça, ela permanecerá imóvel. E durante os 90 minutos do filme a gente percebe nitidamente como esse comportamento agride e irrita aqueles que querem estar no controle.

Em contrapartida, o “fazer algo” da Agnes está muito ligado as expectativas sociais que ela internalizou. Ela está sempre em movimento, mas de uma maneira apreensiva, desengonçada, como quem queria estar em outro lugar, fazendo outra coisa. Isso causa um sofrimento e frustração que é ignorado pelas outras pessoas, que só se preocupam em ver se ela está se comportando de acordo com o esperado.


A personagem Julie é uma grande força que gera movimento. E reparem na contradição: ela fala tanto em permanecer imóvel, mas seu modo de enxergar a vida em sociedade nos estimula a sair da nossa zona de conforto e questionar se o que fazemos é por nós ou para corresponder às expectativas externas. Não existe nenhuma referência filosófica nos discursos de Julie, apenas o ponto de vista de alguém que viu coisas em sua vida e concluiu que não se esforçar para ser aceito ou pertencer a grupos é o melhor modo de se viver. Talvez seja uma atitude extrema, mas é difícil não concordar com ela. Julie é a garota inflamável por excelência. No sentido literal, quando coloca fogo nas coisas e no sentido metafórico, inflamando Agnes a fazer as coisas por sua própria vontade.

Em sua estreia como diretora de longas de ficção (antes já havia dirigido diversos curtas metragem), Elisa Mishto criou uma personagem que incomoda em diversos sentidos, mas que gera empatia e cumplicidade. Nossa sociedade machista e patriarcal não sabe lidar com mulheres que não obedecem às regras impostas. A pequena revolução que Julie e Agnes provocam na vida uma da outra é inspiradora e pode ser o começo de uma resposta para todas as coisas ruins que as mulheres vivem cotidianamente.

A diretora alemã Elisa Mishto

“Garota Inflamável” tem distribuição da Pandora Filmes e chega aos cinemas no dia 14 de julho. Agradecemos muito a Sinny Assessoria pelo convite para essa cabine online.

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