Entrevista com a diretora e roteirista Natara Ney, do documentário ESPERO QUE ESTA TE ENCONTRE E QUE ESTEJAS BEM
Era 2011 e a diretora e roteirista Natara Ney estava na feira de antiguidades da Praça XV, centro do Rio de Janeiro, fazendo pesquisa para um projeto. Entre tantos objetos antigos a venda, cartas amassadas, histórias, fotos desbotadas e recordações passadas, um lote de cartas com data dos anos 50 atraiu o seu olhar. Precisamente 186 cartas escritas entre os anos de 1952 e 1953, onde Lucia, uma moça de Campo Grande/MS descreve poeticamente para o namorado Oswaldo (que trabalha no Rio de janeiro) o dia a dia, o amor e a saudade.
Durante os sete anos seguintes, Natara se empenhou em reencontrar os protagonistas dessa história de amor. No caminho, entrevistou pessoas nas duas cidades, conheceu detalhes sobre o passado do país e o estilo de vida da época e usou essas cartas para despertar outras memórias nostálgicas. Enquanto tentava encontrar o apaixonado casal das cartas, a diretora também fez uma viagem interna em suas próprias memórias de amor. O resultado dessa investigação poderá ser conferido no documentário ESPERO QUE ESTA TE ENCONTRE E QUE ESTEJAS BEM, que chega aos cinemas no próximo dia 9 de junho, perto do Dia dos Namorados. Data bem oportuna, pois esse é um trabalho que enaltece o amor em seus detalhes mais singelos. Também é uma obra sobre a força da memória, resistência, energia, fé e coragem.
Por intermédio da Sinny Assessoria, eu tive a oportunidade
de entrevistar a diretora por e-mail e ela contou um pouco mais sobre essa
jornada e a importância de se preservar as memórias (sejam elas pessoais,
coletivas e da história do país).
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| A roteirista e diretora Natara Ney |
- Queria saber um pouco mais sobre como foi que você encontrou as cartas e em que momento tomou para si a missão de não apenas encontrar o casal, mas registrar todo o caminho percorrido.
Encontrei as cartas quando estava pesquisando para outro projeto, na Feira da Praça XV, que era perto da casa em que eu morava no Rio de Janeiro, um passeio que eu fazia com certa frequência. O vendedor havia lido algumas delas e falava muito de como eram bem escritas, de como o amor do casal era lindo. Compramos as cartas e eu li cada uma delas, coloquei em ordem cronológica. Logo em seguida me veio o desejo de saber o que havia acontecido com aquelas pessoas e o entendimento de que aquele material não me pertencia, era um tesouro a história de duas vidas. Comecei primeiro uma investigação para tentar devolver as cartas, depois me ocorreu que este trajeto deveria ser filmado, registrado.
- Teve algum momento dessa trajetória em que você acreditou que não encontraria o dono das cartas? Como você lidou com isso?
Nunca tive certezas ou medos durante o processo de execução do filme, me encantei com o caminho que estava fazendo.
- Em certo momento do documentário, um
dos entrevistados diz que a nova geração poderá nunca ter memória. Com esse
mundo cada vez mais conectado e virtual, como você acredita que os jovens irão
lidar com a questão da memória?
Acho que estamos
construindo outros tipos de memória, o que é o carrossel do Instagram senão uma
releitura do projetor de slides, os podcasts são rádios criadas por nós para
tratar de temas que antes não eram falados. Estes dias um livro de cartas foi
lançado em um grande evento, avós ensinam os netos sobre bordado estamos o
tempo inteiro construindo memórias. Por isso é tão importante o cuidado com os
arquivos e com a história deste país.
- Na reunião dos ex-funcionários da
PanAir do Brasil percebemos a memória como um espaço de resistência. Como você
entende a importância desse documentário em um país como o nosso, que se
empenha tanto em apagar o passado?
Eu tenho uma imensa
paixão por documentários, pelo registro de fatos, pela possibilidade de
criarmos um conjunto de reflexões sobre nossos tempos. Existe um descaso imenso
com a memória deste país principalmente da memória do povo preto, um apagamento
de fatos, de personalidades que ajudaram a construir esta nação, sinto que é
proposital. Registrar, contar, recontar nossa história, mesmo que por um viés
pessoal, é um caminho para definirmos um futuro melhor.
- O seu documentário se assemelha a um
diário de viagem. Você nos leva para outros espaços físicos, mas também mostra
outros espaços temporais e afetivos. Dizem que mais importante do que a chegada
ao destino, é o caminho percorrido até ele. O que de mais interessante você
encontrou pelo caminho enquanto desenvolvia esse projeto?
Acho que foi me deparar
com tantos sentimentos, com esse desejo imenso que as pessoas tinham de falar
sobre suas vidas, sobre seus amores, receber o afeto de tanta gente, mobilizar
uma energia em torno do amor. Ver a emoção no rosto das pessoas enquanto elas
descreviam seus relacionamentos ou tocavam nas cartas. Esse filme me deu um
amor que eu não tinha.
- Muitas coisas mudam em sete anos.
Quem era a Natara quando encontrou essas cartas na Praça XV e quem é a Natara
hoje em dia?
Antes de iniciar esta jornada eu acreditei em todos os nãos que ouvi na vida,
não tinha segurança para contar uma história no cinema, depois dele nasceu em
mim uma realizadora. Eu devo a este filme a minha reescrita como cineasta.
ESPERO QUE ESTA TE ENCONTRE E QUE ESTEJAS BEM será distribuído pela Embaúba Filmes.
Agradecemos muito a Sinny Assessoria e
a assessora de imprensa Paula C. Ferraz pela oportunidade de assistir ao
documentário em uma cabine online e realizar essa entrevista com a diretora.
Escrito por Ana Paula Santos



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