AMADO é um herói brasileiro contemporâneo ou cria deformada de um Estado ausente?

Autora: Ana Paula Santos

Logo no início do filme “Amado” encontramos o nosso protagonista em uma ronda noturna com os seus companheiros de farda. Cabo Amado atua na Ceilândia, região metropolitana de Brasília e é um policial militar sério, bem treinado e dono de uma frieza quase invejável. Claramente descontente com a forma burocrática e corrupta da corporação, ele resolve as ocorrências com métodos próprios – e por vezes questionáveis. Como bem podemos conferir ao final da perseguição a dois bandidos que roubaram a casa de uma senhora, Cabo Amado não gosta de dar segunda chance para marginal.

Os diretores Edu Felistoque e Erik de Castro se inspiraram em uma história real para contar nas telas a estória de um policial íntegro que enfrenta sozinho traficantes e milícias acreditando na justiça acima de qualquer hierarquia. E num primeiro momento isso parece incrível.

Cabo Amado nos passa uma sincera vontade de fazer a diferença dentro da comunidade onde atua, mas passando longe da burocracia envolvida no processo. Em campo, ele persegue os criminosos, os detém, julga e executa a pena no local mesmo. Para ele, a vida se divide entre pessoas honestas e “almas sebosas”, que merecem a morte. Ele é uma muralha de valores morais, um representante da justiça em seu estado bruto e inflexível. Esse comportamento fica ainda mais evidente no terceiro ato do filme, quando, após ser vítima de uma emboscada, ele assume a persona de justiceiro solitário (numa mistura de Charles Bronson em Desejo de Matar com Keanu Reeves em John Wick) e vai sozinho, armado até os dentes, atrás dos homens que mataram a única pessoa que ele amava de verdade (uma jovem prostituta com quem planejava se casar). Aqui, a ambiguidade do personagem e da situação é reforçado pela trilha sonora que amplia a sensação de tensão e uma fotografia escura que tenta soar como os filmes policiais americanos.


É praticamente impossível assistir ao filme sem dizer ao menos uma vez a frase MORREU FOI POUCO, após uma ação de Cabo Amado. Ele é um pouco cada um de nós que já passou por alguma situação de violência na cidade grande ou nas periferias do Brasil e se sentiu desamparado pelo poder público. Ele também nos dá esperanças quando encara de frente seu superior e diz claramente não vai aceitar suborno para libertar bandido. Que coragem, meus amigos! Agora eu entrego a fria reflexão: só olhamos esse personagem com admiração e respeito porque falta na nossa sociedade uma estrutura realmente honesta e eficaz que combata o crime em sua raiz. Foi na ausência do Estado que se organizou esse poder paralelo das milícias e do narcotráfico, que alimenta uma indústria complexa de violência e mortes, que lucram rios de dinheiro às custas de vidas inocentes.

Na condição de cidadãos, estamos presos dentro de um ciclo de impunidade que, entre muitas coisas, sustenta os discursos de ódio da extrema direita, e faz muitos de nós repetir que “armar o cidadão é a solução” e “bandido bom é bandido morto”, sem realmente entender o peso do que isso significa na prática. Chegamos no atual momento encarando a truculência com brilho nos olhos e desejando, mesmo que inconscientemente, um Cabo Amado atuando na nossa cidade.

Não estamos errados. Estamos cansados e desesperados.

Mas não podemos, de maneira alguma, nos entregar a resposta justiceira que Cabo Amado oferece. Ele não é um exemplo a ser seguido. É apenas um homem comum que acredita ser melhor que os outros, que age dentro de suas próprias regras e faz o que considera certo em um ambiente onde predomina o errado. E aqui está a principal falha do roteiro e da direção: eles não deixam claro qual é o propósito do filme. É para enaltecer o personagem ou rejeitar ele? É uma crítica específica ao sistema ou um estímulo para a sociedade fazer sua própria justiça? O modo como o filme é conduzido não deixa a gente ter certeza sobre os motivos pelo qual ele existe. Tal qual José Padilha em seu primeiro Tropa de Elite, a mensagem dúbia entregue pelos diretores pode levar a equívocos tão grandes quanto aqueles que transformaram Capitão Nascimento em um personagem popular.


“Amado” tem distribuição da Downtown Filmes e chega aos cinemas no próximo dia 9 de junho. Tem no elenco Sérgio Menezes, Adriana Lessa, Alexandre Barillari e outros.

Agradecemos muito a assessora de imprensa Pati Rabello pelo convite para essa cabine de imprensa online e pela confiança no nosso trabalho.


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