Análise do filme brasileiro "Os Primeiros Soldados"

*Essa análise foi escrita em algum dia de novembro de 2021, quando assisti ao filme em uma cabine de imprensa online, convidada pela assessora de imprensa Pati Rabello. Na ocasião, gravei vídeo comentando o filme e escrevi post para o nosso Instagram. Agora é a vez do texto completo brilhar*


Autora: Ana Paula Santos

Nasci em 1985 e fui alfabetizada cedo, antes dos 5 anos já sabia ler e rabiscar umas letras. Minha mãe não tinha muito critério com leituras que eu poderia ou não dar conta e colocava de um tudo na minha mão para eu ficar lendo e treinando a pronúncia das palavras. Numa dessas, passeando na casa da minha avó, peguei em algum lugar um livreto colorido e cheio de desenhos, que falava sobre os cuidados que as pessoas tinham que ter com relação a uma doença que fazia as pessoas perderem peso e provocava feridas na pele. Eu lembro que fiquei com esse livreto por dias, lendo, relendo, olhando os desenhos... eu nem imaginava, mas aquele livreto tão legal tinha informações sobre a AIDS e naquele momento da minha vida (início dos anos 90), a doença começava a ter a sua dinâmica de transmissão compreendida pela ciência e a população começava a ter acesso a materiais com informações sérias e baseadas em pesquisas e estudos comprovados. Às portas de 2022, a AIDS é considerada uma doença crônica, e seu diagnóstico hoje não significa uma morte certa e sofrida. Com tratamento e acompanhamento certo, a pessoa pode ter uma vida normal e produtiva. Não era assim na época em que eu lia aquele livreto que peguei aleatoriamente na casa da minha avó. E no início dos anos 80, quando apareceram os primeiros casos no mundo, era muito pior.

Estigmatizada desde o início como uma “doença gay”, os primeiros casos surgiram entre a comunidade homossexual da Europa e EUA, provocando grandes alardes negativos na população como um todo. Teve quem acreditasse que a doença era “castigo divino”, e outros que falavam que o vírus foi criado em laboratório para exterminar gays e travestis. Como sempre podemos observar em situações assim, a ignorância acaba, muitas vezes, sendo pior do que a própria doença (vide o que estamos presenciando hoje em dia com as fake news envolvendo a covid-19), então a comunidade gay, sempre desprezada e violentada, sofreu ainda mais com algo que nem eles mesmos entendiam de onde tinha surgido.

O diretor Rodrigo de Oliveira resolveu contar no cinema a sua visão sobre a chegada da AIDS ao Brasil, no início da década de 1980, no filme “Os Primeiros Soldados”. Por meio de três personagens que moram na cidade de Vitória (ES) ele mostra como era estar com uma doença que mal tinha nome, mas já carregava com ela estigmas e preconceitos pesados. É um filme sobre resistência e dignidade. Esses três personagens tentam juntos se manter íntegros e dignos. Já que a morte é inevitável, que exista também a coragem de conhecer o inimigo de frente antes que ele o derrube, e que a queda não venha antes de uma árdua luta.


O filme se passa em três tempos distintos: a noite de 31 de dezembro de 1982, onde conhecemos Susano (que mora na França e está passando as férias no Brasil com a irmã e o sobrinho), Rose (cantora transexual que se apresenta na boate gay GENET) e Humberto (videomaker e amigo de Rose). Ao seu modo, cada um deles está envolvido em uma atmosfera de melancolia e tristeza, como se esperassem do ano novo mais do que novos 365 dias para colocar planos em prática. A segunda parte se desenrola oito meses depois daquela noite de réveillon, quando Susano aparece novamente, agora magro, pálido, e com algumas feridas pelo corpo. Ele está muito cansado e sabe que tem pouco tempo para tentar dar um alerta ao público que frequenta a boate GENET. É interessante notar que tanto na primeira quanto nessa segunda parte nós temos uma predominância de tons azulados e rosados (puxando para um roxo) que ressaltam a melancolia desses ambientes e uma sutil presença da morte que envolve aquelas pessoas e lugares. Nessa parte do filme não existe mais esperança e nem otimismo, e aqueles sonhos de réveillon se tornaram vagas lembranças. A terceira parte mostra o que aconteceu nos oito meses antes de Susano reaparecer em Vitória. São os vídeos feitos por Humberto que registram o dia a dia dos três personagens que tentam entender juntos a doença que está neles e como controlar (ou quem sabe até curar) ela. Como um testamento vivo, essas gravações registram a coragem e a esperança de Susano, Rose e Humberto, que não podem contar com o apoio de mais ninguém além deles mesmos. Eles acreditam numa cura e a gente também se deixa levar por essa esperança bucólica de uma cura. Da doença e dos preconceitos, violência e descaso que cercam a comunidade LGBTQIA+ desde muito antes daqueles tempos e que ainda se faz presente nos dias de hoje.

O trabalho do diretor (que também escreveu o roteiro e foi o responsável pela montagem do filme) é incrível e desperta muitas emoções. Eu destaco principalmente o trio de atores principais que se mostram muito entregues a seus personagens e entendem a verdade e a urgência da mensagem que estão transmitindo. Rose, particularmente, me encantou demais. Todas as cenas com ela, até as mais banais, têm um brilho próprio e diferenciado. Um outro aspecto muito bacana do filme é a trilha sonora que tem apenas músicas brasileiras da época. Como não se emocionar ouvindo “Linda Juventude”, do 14 Bis ou “Guerreiro Menino”, do Gonzaguinha? O uso das músicas também funciona muito bem como recurso para nos posicionar sobre a mensagem que o filme quer passar naquela cena específica.

“Os primeiros Soldados” é uma produção da Pique Bandeira e Canal Brasil e ainda não tem uma data específica de estreia nas salas de cinema, mas já foi exibido em festivais no exterior e ganhou prêmios em Berlim. Ficamos aqui no aguardo de poder prestigiar em breve na tela grande a força do cinema brasileiro, que mesmo contra todas as possibilidades, resiste bravamente e está cada vez mais relevante para o mundo.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

CRIATURAS DO SENHOR e o peso que uma mãe carrega quando tenta proteger o seu filho a qualquer custo

BEAU TEM MEDO mostra de maneira alegórica (mas ao mesmo tempo muito crua) como as mães podem ser cruéis e destrutivas

WHIPLASH e a romantização do assédio moral como forma de motivação